O maior site de compartilhamento de arquivos da internet encontrou port seguro na Islândia depois de mudar várias vezes de país nos últimos meses.
O site The Pirate Bay deixou de usar o sufixo .SE há duas semanas atrás por medo de que o govrno sueco estivesse prestes à tomar o domínio. A primeira mudança foi para a Groenlândia, usando o sufixo .GL, mas a empresa que controla o sufixo cancelou o uso, dizendo que não prova uso de seus serviços para fins “ilegais”.
Com a mudança para a Islândia, agora o site usa o sufixo .IS, e segundo a ISNIC, que controla os nomes de domínio islandeses, ele só cancelariam o nome caso haja uma ordem judicial neste sentido. Por enquanto, The Pirate Bay segue navegando as águas da internet islandesa, e pode ser encontrado no endereço thepiratebay.is.
Enquanto isso, as pesquisas de opinião indicam que o Partido Pirata vai ganhar 6% dos votos nas eleições parlamentares neste próximo fim de semana.
Este cavalo nasceu prematuro e inesperadamente em Março. Porque o pelo dele era fino demais, o fazendeiro teve que encontrar alguma outra solução para mantê-lo aquecido. Ele foi até uma loja da Cruz Vermelha e comprou um casaco velho, de modelo tradicional islandês, ("lopapeysa"). Segundo o fazendeiro, o casaco salvou a vida do pequeno potro!
Os islandeses são loucos por bolos. Para todas as ocasiões se come bolo. Me lembro de uma história de um padre que viajava pela Islândia no século XIX e que acabava só comendo bolo em toda casa que em que parava, já que para um hóspede ilustre como esse tem-se sempre que oferecer um bolo.
Todo ano as padarias da Islândia todo competem para ganhar o prestigioso título de Bolo do Ano. A receita desse bolo é então enviada para todas as padarias, e assim se pode comprar o Bolo do Ano em qualquer lugar do país. A receita não se torna pública, no entanto.
O Bolo do Ano de 2013 foi anunciado na semana passada - ele é sempre anunciado na semana anterior ao “Dia da Esposa”, que nesse ano foi ontem.
Ele tem uma camada de mousse de chocolate branco, ganache de chocolate meio-amargo, e uma base de côco ralado com creme de amêndoa, e coberto com uma calda de caramelo.
Abaixo estão minhas fotos do bolo. Uma delícia!
Quando você visitar o Islândia, não deixe de experimentar o bolo do ano!
A Islândia tem uma mistura interessante de tradições natalinas, misturando religião e folclore. Os islandeses gostam de comemorar o natal, decoram as casas por dentro e por fora, e durante o mês de dezembro as rádios tocam músicas de natal quase que exclusivamente.
Grýla
As crianças islandesas, já desde de pequenas, aprendem sobre a história da Grýla, que é uma mulher troll que vive nos montanhas e que tem um grande apetite por crianças. Essa é uma lenda muito antiga, que vem desde os tempos pagãos. Grýla vive nas montanhas com seu marido, 13 filhos (os 13 papai-noéis), e um gato preto (o Gato do Natal). À cada natal, Grýla e seus filhos descem das montanhas, ela em busca de crianças para colocar em seu caldeirão e preparar para o jantar, e os filhos para fazer todo tipo de travessuras.
Há algumas semanas atrás, quando eu visitei o mercado de natal aqui de Hafnarfjörður (fotos do mercado em breve), vi por lá uma mulher vestida de Grýla assustando as crianças. Vi até duas meninas mais velhas tentando arrastar um menino mais novo para perto da Grýla, e a expressão de absoluto terror do menino me mostrou como as crianças islandesas tem mesmo muito medo da Grýla.
Os 13 Papai-Noéis
As crianças islandesas não ganham um presente de um Papai Noel na noite do natal, mas ao invés disso elas deixam um sapato na janela nos treze dias antes do natal, e à cada dia um dos 13 Papai-Noéis deixa um pequeno presente no sapato. Ou se a criança foi mal-comportada, ela ganha uma batata. Cada um dos Papai-Noéis faz um tipo de travessura diferente que dá à cada um seu nome, dentre eles: Batedor de Portas, Ladrão de Salsichas, Lambedor de Panelas, etc.
O Gato do Natal
Segundo a tradição, todas as pessoas na Islândia tem que vestir algo novo no natal, ou arriscam serem devoradas pelo Gato do Natal. Ele é um gato preto enorme, do tamanho de uma casa, que caça e come aqueles que não obedecem essa tradição.
A lenda do Gato do Natal é muito antiga, e uma das teorias sobre sua origem é de que a história do Gato do Natal costumava ser contada para crianças para assustá-las e fazê-las terminarem de tecer e costurar suas roupas em tempo para as festividades do natal. Durante muitos séculos na Islândia, as crianças tinham que tecer suas próprias roupas à partir da lã das ovelhas da fazenda.
Feliz natal à todos os leitores do blog! Gleðileg jól!
No supermercado Hagkaup, perto da minha casa, nessa semana tiveram um “Dia Americano” com vários produtos típicos dos EUA à venda. Nesse dia, logo na entrada encontrei este daí, com um crachá do supermercado.
Ele é um cara bacana, mas nessa ocasião achei ele um tanto, vamos dizer… chato! hehehe
Eu diria que a característica principal do clima da Islândia não é necessariamente o frio, mas sim o vento. É muito raro um dia sem vento, e quando eu me refiro à vento, é algo que acho que só mesmo visitando a Islândia pra entender do que estou falando. Não é raro carros serem jogados fora da estrada pelo vento, por exemplo.
Uma das experiências mais estranhas que eu pessoalmente já tive aqui na Islândia teve a ver com o vento. No ano passado aconteceu de uma estufa que eu tinha colocado na varanda aqui de casa, uma estrutura grande de canos de metal e plástico grosso transparente, ser levada pelo vento, e ir parar à três quarteirões do prédio onde moro. Eu perseguindo de carro a estufa pelas ruas enquanto o vento à levava em alta velocidade foi algo surreal.
Mesmo conhecendo bem o vento daqui, a notícia que vi hoje me impressionou. No último fim de semana tivemos uma nevasca em várias partes do país (sim, nevasca em Setembro!), e os ventos fortes, olha só, chegaram à arrancar o asfalto das estradas! Olha aí a foto:
Ainda falando da nevasca do fim de semana, no norte do país ela foi tão forte que chegou a enterrar as ovelhas na neve. Normalmente as ovelhas ficam soltas no verão, e são recolhidas para passar o inverno dentro de galpões, mas essa nevasca veio cedo nesse ano, antes da época das ovelhas serem recolhidas. Os fazendeiros agora estão fazendo buscas, usando longas varas na neve tentando encontrar as ovelhas. Um total de 12 milhões de ovelhas ficaram presas na neve. Essa é uma das coitadas, mas essa pelo menos teve sorte de ser encontrada:
A praia artificial Nauthólsvík, em Reykjavík, é um lugar um tanto estranho. A praia foi criada com areia importada, e a água, que é fechada do resto do mar, é aquecida artificialmente.
Ontem, quando eu estava dando uma caminhada pela capital, eu visitei Nauthólsvík às 23:00…
Em um país pequeno como a Islândia, não é com freqüência que um islandês vence algum evento internacional, e quando isso acontece é razão de tremendo orgulho nacional, não importando o tamanho do evento. Não foi diferente quando, na semana passada, pela primeira vez na história um islandês venceu a "Naked Race" (algo como "A Corrida dos Pelados") no Festival de Roskilde, na Dinamarca.
A corrida acontece todos os anos no festival desde 1998. São permitidos sapatos, mas nenhuma outra peça de vestuário. Como prêmio, o vencedor ganha ingressos para o festival do ano seguinte.
Em entrevista com um canal de televisão dinamarquês, o islandês de 22 anos, Pétur Geir Grétarsson, disse "Esse é o melhor dia da minha vida! É inacreditável. Sou o primeiro islandês a ganhar essa corrida, espero que comentem sobre isso!”
Todo ano em Junho acontecem dois festivais de cultura Viking na Islândia, o maior é em Hafnarfjörður, um subúrbio de Reykjavík, e o menor em Borgarnes, que fica há cerca de duas horas de carro da capital.
Eu venho frequentando esses festivais todo ano nesses cinco anos que moro por aqui, e sempre acho bem legal o entusiasmo quanto à celebração de suas raízes culturais.
Em Hafnarfjörður, uma vila Viking é construída ao volta do hotel e restaurante viking que fica no porto da cidade, e por uma semana são organizados vários eventos como encenação de batalhas, casamentos pagãos (válidos legalmente), torneios de arco e flecha, e sempre há várias tendas vendendo todo tipo de artigo ligo à cultura da era Viking na Islândia.
Dessa vez eu até cheguei a experimentar o arco Viking:
Em Borgarnes o evento é menor mas não parde o seu charme.
Ah, e acabei comprando em Borganes esse jogo tradicional dos Vikings que estão jogando nessa foto aí em cima, chamado Hnefatafl. O jogo é simples de aprender, mas difícil de dominar…
Dia 17 de Julho é celebrado o Dia da Independência da Islândia. O país conquistou sua independência em 1944, depois de de mais de 500 anos de dominação dinamarquesa.
O verão nesse ano tem sido excepcionalmente bom, e nesse dia de comemoração não foi diferente. Mais de 60 mil pessoas (20% da população do país) se ruiníram no centro de Reykjavík para celebrar e acompanha os eventos do dia, que incluíram um show de músicos islandeses e eventos para as crianças.
Algumas passoas estavam vestindo a roupa tradicional da Islândia:
A música "Ai Se Eu Te Pego!" de Michel Teló (obrigado aos leitores por me ajudar a identificá-la!) tem feito bastante sucesso aqui na Gelolândia, está sempre tocando no rádio, e um dos meus colegas de trabalho até tem essa música como ringtone.
Existe uma tradição por essas bandas de se criar versões islandesas de músicas estrangeiras de sucesso, e com essa aconteceu super-rápido. Já está tocando no rádio a versão islandesa que é à respeito de, sério mesmo, sentar no musgo!
Aqui está a versão islandesa:
A letra dessa versão em islandês:
Mosa, mosa Ég ætla að liggja í mosa. Æ sestu hjá mér Æ, æ leggstu hjá mér
Elma Lísa, Elma Lísa Ég ætla að liggja í mosa Æ leggstu hjá mér Æ, æ leggstu hjá mér.
Mosar þekja meira en helming af heildar gróðurþekju landsins. Þeir eru einkum ríkjandi þar sem gróðurskilyrði óhagstæð.
Mosa, mosa Ég ætla að liggja í mosa. Æ sestu hjá mér Æ, æ leggstu hjá mér
Elma Lísa, Elma Lísa Ég ætla að liggja í mosa Æ leggstu hjá mér Æ, æ leggstu hjá mér
Algengustu mosar eru gamburmosar, snælubbi og hélumosi. Þeir geta stundum verið ríkjandi og myndað samfelldar ljósgráar breiður.
Mosa, mosa Ég ætla að liggja í mosa. Æ leggstu hjá mér Æ, æ leggstu hjá mér.
Elma Lísa, Elma Lísa Ég ætla að liggja í mosa Æ sestu hjá mér Æ, æ leggstu hjá mér.
E aqui a tradução da versão islandesa para o português:
Musgo, musgo Vou deitar no musgo Ai senta comigo Ai, ai deita aqui comigo
Elma Lísa*, Elma Lísa Vou deitar no musgo Ai deita comigo Ai, ai deita aqui comigo
Musgo cobre mais da metade de todas as coisas na Islândia Ele é mais forte em lugares em que as condições não são boas
Musgo, musgo Vou deitar no musgo Ai senta comigo Ai, ai deita aqui comigo
Elma Lísa*, Elma Lísa Vou deitar no musgo Ai deita comigo Ai, ai deita aqui comigo
Os tipos mais comuns de musgo são musgo cinza, cabelo de neve, e musgo de gelo Eles podem algumas vezes tomar conta e formar um campo cinzento contínuo
Musgo, musgo Vou deitar no musgo Ai deita comigo Ai, ai deita aqui comigo
Elma Lísa*, Elma Lísa Vou deitar no musgo Ai deita comigo Ai, ai deita aqui comigo
- *(Elma Lísa é um nome de mulher) -
E aí, vocês preferem a música sobre a balada ou sobre o musgo? kkkk
Os jornais aqui na Islândia estão reportando que o parlamentar islandês Árni Johnsen transportou nessa semana passada para a casa dele em Höfðaból, nas Vestmannaeyjar (Ilhas dos Homens do Oeste, ao sul da Islândia), uma rocha de 30 toneladas que ele acredita ser a casa de duas famílias de elfos.
Tudo começou quando em 2010 Árni Johnsen escapou ileso de um acidente de carro perto dessa rocha, a atribuiu a sua boa sorte à elfos que estariam morando na rocha.
Segundo o folclore islandês, o chamado “povo oculto”, que são de aparência e tamanho bem similar aos humanos, mas invisíveis à não ser quando querem ser vistos, moram em casas invisíveis que para nós parecem ser apenas grandes rochas.
Árni Johnsen contou ao jornal islandês Morgunblaðið que, depois do acidente, ele convidou uma médium e especialista em elfos para visitar o local. Ragnhildur Jónsdóttir, a médium, depois de analisar a rocha, disse que duas famílias de elfos vivem nela em uma casa de dois andares, um casal de idosos, e mais um casal e três crianças. Conversando com os elfos, Ragnhildur teria perguntado à elas se eles precisam de alguma coisa, e eles teriam dito que gostariam de morar em algum lugar com grama porque gostariam de ter ovelhas (animais dos elfos, são também, claro, invisíveis aos humanos).
Foi então que o parlamentar Árni Johnsen, em agradecimento aos elfos terem usado seus poderes mágicos para salvar a vida dele, resolveu transportar a casa dos elfos, a rocha, para o jardim da casa dele em Höfðaból. A rocha de 30 toneladas foi embalada em pele de ovelha para que os elfos viajassem de maneira confortável no navio até Vestmannaeyjar, e assim como para os passageiros humanos no navio, passagens individuais foram compradas para os sete passageiros elfos.
Acho essa parte do folclore islandês, e o fato da crença em espíritos da natureza e elfos sobreviveu ao mundo moderno, uma parte fascinante a cultura da Islândia.
Vamos torcer para que as famílias de elfos se adapte bem na nova vizinhança e que estejam satifeitas com suas ovelhas élficas!
Sigurður Einarsson era presidente do banco Kaupthing, que era o maior banco islandês até a sua falência durante a crise financeira em 2008. Einarsson tinha obtido um empréstimo do próprio banco no valor de 3 milhões de euros, e nos dias logo antes do colapso do banco ele usou seu poder como presidente do banco para assinar um perdão dessa dívida. Mais e mais casos desse tipo de manipulação ilegal dos registros contábeis dos bancos vem sendo revelados nos anos desde a início da crise, e causando muita raiva dentre o povo islandês no geral.
Alguns dos diretores dos bancos falidos, que tinham de maneira similar obtido grandes empréstimos logo antes das falência dos bancos, já negociaram com o governo o re-pagamento das dívidas. Mas como Sigurður Einarsson se recusou a negociar, o caso foi à justiça.
Ontem, um tribunal em Reykjavík passou julgamento dizendo que a anulação da dívida de Sigurður Einarsson foi ilegal, e que ele deve pagar ao governo, que assumiu as dívidas dos bancos falidos, a quantia total que ele deve, com correção.
Essa notícia me deu esperança de que o sistema de justiça islandês ainda tem a determinação de fazer a coisa certa mesmo contra os ricos e poderosos.
No ano passado o parlamento islandês decidiu que o ex-primeiro ministro Geir Haarde deveria ir à julgamento para responder à acusação de crime de negligência durante o seu governo em relação ao colapso financeiro em 2008. Naquele ano todos os três bancos comerciais islandeses faliram, a moeda islandesa perdeu mais da metade do seu valor, e muitos bilhões de dólares desapareceram do sistema financeiro, tudo isso num espaço de duas semanas em Setembro de 2008, no que foi o maior colapso econômico da história de qualquer país. Em Janeiro de 2009, Geir Haarde e seu partido de direita, o Partido da Independência, caíram durante a "Revolução das Panelas" e a Islândia tem sido governada desde então por uma coalisão de partidos de esquerda.
O julgamento de Geir Haarde, o primeiro governante de um país à respender por alegações de crimes de incompetência no cargo, vem acontecendo nos nesses últimos meses. Os islandeses tem acompanhado de perto os depoimentos de ministros e outros políticos que faziam parte do governo na época da crise, e de economistas e banqueiros.
A procuradora Sigríður Friðjónsdóttir concluiu no seu discuso final que na questão de responsabilidade pessoal de um membro do governo a lei é clara, e que Geir teve várias oportunidades de agir para prevenir o desastre mas escolheu ignorá-las. Já o advogado de defesa, Andri Árnason, disse que fatos importantes sobre a situação do sistema financeiro só foram revelados à Geir quando já era tarde demais.
Hoje saiu o veredito. O ex-primeiro ministro Geir Haarde foi julgado cupado de uma das acusações, e inocentado de outras três. A acusação de que ele foi declarado culpado é a de que ele falhou em seu dever constitucional de se comunicar adequadamente com seus ministros e deixou impropriamente de fazer reuniões de emergência quando era óbvio que o colapso financeiro estava para acontecer. Mas o pior é que apesar de ter sido considerado culpado de um dos crimes de negligência, não haverá penalidade nenhuma. Como é que alguém julgado culpado por um tribunal pode escapar ser punição nenhuma é não só bizarro, mas revoltante. E quem paga por esse festival de pizza? O povo, é claro. Os custos legais desse julgamento, num total de 24 milhões de coroas (cerca de R$357,000 reais) serão pagos pelo governo, quer dize, pelo contribuinte.
Comentando sobre o resultado, Geir Haarde mostrou mais uma vez a arrogância pela qual ele é famoso, e disse que o veredito teve motivação puramente política e que foi "ridículo e uma piada de mal gosto". Ainda, ele disse que vai apelar ao tribunal eurpeu de direitos humanos. Numa entrevista de televisão ontem ele afirmou que os membros do governo atual deviam todos renunciar por ter aprovado esse julgamento, mas ficou mudo quando o entrevistador perguntou porque ele estava pedindo por renúncia quando ele mesmo recusou renunciar quando o colapso financeiro ocorreu em 2008.
Esse resultado foi uma pena, o resultado foi a pizza da impunidade, ao inves de mandar uma mensagem de que há consequências para corrupção e mau governo. Pra mim mais parece uma escolha que permite à ambos os lados da política islandesa, os partidos de esquerda e direita, dizerem que "venceram" nesse julgamento.
Nesse mês se completam cinco anos desde a minha mudança aqui para a Gelolândia. São sessenta meses desde aquele dia quando, eu já cansado de morar na mega-metrópole por tantos anos estava deixando a vida britânica para trás, e embarquei no vôo em Londres com a minha namorada com uma passagem só dia ida para a essa rocha no Atlântico Norte, carregando meia dúzia de malas grandes e mais um Violoncelo, que viajou com a passagem em nome de “Mr. Cello” e ocupando a poltrona ao nosso lado no avião. As outras 63 caixas com nossos pertences pessoais chegaram de navio algumas semanas depois num dia de final de Março em que a neve caia e um vento frio soprava do mar em Kopavogur. Eu comecei a trabalhar para a empresa onde ainda trabalho hoje logo na semana depois de ter chegado, e compramos nosso apartamento logo seguida, no primeiro verão daquele ano, e só tínhamos um tv e uma cama para mobiliar o novo lar.
É difícil pra mim olhar para trás e avaliar esses últimos cinco anos e tentar chegar à uma resposta à questão que a ocasião me força à me perguntar: morar na Islândia correspondeu às minhas expectativas, e valeu mesmo à pena ter mudado pra cá?
Responder à essa pergunta é difícil porque, como qualquer outro lugar, a Islândia tem vários aspectos ruins… a falta de variedade no comércio, os preços altos, o isolamento geográfico, os altos impostos no geral e altos impostos de importação que acabam me privando de algumas coisas, a chuva e neve e vento incessantes, alguns aspectos da mentalidade dos islandeses e da sociedade em geral, a falta do que fazer à vezes, os maus motoristas, etc… e a língua, sim eu cito a língua islandesa como um aspecto negativo, para mim que não fui abençoados com o dom para aprender facilmente outros idiomas. Depois de cinco anos por aqui, continuo sem poder conversar com alguém na língua local, ou assistir o noticiário ou ler um jornal.
Mas ainda, claro, os aspectos positivos são vários também, e dentre eles os mais importantes acredito que sejam a segurança, o tempo livre, e a facilidade e rapidez de deslocamento. A questão da segurança é realmente importante. Enquanto arrombamentos de casas são relativamente comuns, por outro lado assaltos e crimes violentos são raros ao extremo. Eu nunca ouvi falar de alguém ser assaltado enquanto caminhando pelas ruas de Reykjavík. Poder andar pelas ruas do centro tarde à noite sem preocupação absolutamente nenhuma é algo que acho que muita gente diria que não tem preço. A questão do tempo livre também é muito importante pra mim, e eu aprecio a reduzida jornada de trabalho que me permite estar em casa antes das 17:00 todos os dias, e o fato de que se nunca se gasta mais de 15 minutos de carro para chegar à qualquer lugar dentro da Grande Reykjavík.
Um outro grande ponto positivo pra mim é que tive a sorte de ter feito bons amigos nesses anos, e meu grupo de amigos está sempre encontrando e fazendo algo divertido juntos.
Enfim, acho que na verdade a questão sobre a qual refleti acima deveria ser reformulada. Deveria ser menos sobre o país e mais sobre a qualidade de vida que morar aqui na Islândia me permite desfrutar. E pensando nesses termos, eu diria sim que sim, a minha mudança foi um sucesso, porque minha qualidade de vida no geral aqui na Islândia é hoje sem dúvida melhor do que nos lugares em que morei antes. Nessa nota positiva, um brinde à esse aniversário de cinco anos… skál!
(ilustração do artista islandês Hugleikur Dagsson)
Vários leitores do blog comentaram nas últimas semanas sobre a imagem de um suposto monstro que teria sido capturada em video, que vem circulando na midia internacional, inclusive no Brasil. Essa notícia só apareceu na midia aqui na Islândia há poucos dias atrás, e o foco por aqui tem sido mais sobre a fascinação da midia estrangeira com o assunto, do que sobre o monstro em si.
Aqui está o video. A pessoa que filmou disse diz que estava tomando o café da manhã em casa, quando viu um movimento estranho no lago, então correu para pegar a filmadora, e correu até margem do lago para fazer o filme. Os céticos afirmam que esse movimento na superfície da água poderia ter sido causado por um galho de árvore, ou outro objeto, preso na margem. Assista e decida por você mesmo.
Eu sempre tive grande interesse sobre o folclore aqui da Islândia, e já tinha lido sobre esse monstro em alguns dos livros de contos de fadas. O primeiro relato sobre esse monstro foi escrito no ano 1345. Os islandeses o chamam de "Lagarfljótsormur" ou “Verme do Rio Líquido”.
O rio glacial Lagarfljót ("Rio Liquido") fica no leste do país e tem 140km de extensão, nascendo na geleira Eyjabakkajökull (“Geleira do Penhasco da Ilha”). Antes de chegar ao mar, o rio desagua num lago de 53 quilômetros quadrados e 120 metros de profundidade em seu ponto mais profundo. Aqueles que já visitaram essa região podem atestar que esse seria o lugar perfeito para um monstro se esconder, por estar coberto em constante neblina e ser muito, muito frio.
A história sobra a origem desse monstro é bem conhecida na Islândia...
Era uma vez, há muito tempo atrás, uma mulher que morava no distrito de Hérað, perto do rio Lagarfljót. Ela tinha uma filha, para quem deu um anel de ouro. A filha perguntou à ela como seria possível lucrar o máximo possível com o anel, e a mãe disse que ela deveria colocar o anel embaixo de uma serpente, e dentro de um baú. Assim o anel cresceria junto com a serpente. A serpente ficou lá por vários dias. Mas quando a garota foi olhar dentro do baú, a serpente tinha crescido tanto que o baú estava quase quebrando. A garota ficou com tanto medo, que ela jogou o baú no rio, com a serpente e o anel dentro.
Algum tempo depois, algumas pessoas disseram ver uma grande serpente na água, e ela começou a matar animais e gente que chegassem perto demais do lago. Algumas vezes ela ia às margens e cuspia um terrível veneno. Os habitantes da região estavam muito preocupados com esse ameaça, mas não sabiam o que fazer. Finalmente, dois xamãs finlandeses foram contratados para vir à Islândia para matar a serpente e recuperar o anel de ouro.
Os xamãs finlandeses pularam no rio, mas logo voltaram à superfície. Eles disseram que não havia solução para esse problema, que a serpente era inderrotável; não era possível matar a serpente ou recuperar o ouro. Mas eles mergulharam várias vezes, e finalmente conseguiram amarrar a cabeça e a calda da serpente ao fundo do lago. Desde então a serpente nunca mais foi mais capaz de matar ninguém, animais ou gente, mas às vezes ela flexiona o seu corpo que pode então ser visto na superfície da água, e é isso que se vê desde então e até hoje na superfície do lago.
Nessa semana nevou mais do que eu já nos meus cinco anos aqui na Islândia.
Essa é a varanda do meu apartamento hoje de manhã:
E se eu quiser fazer um churrasco nesse inverno, vou precisar de uma pá:
Quando eu estava voltando pra casa, meu carro ficou atolado na neve e tive que chamar um guincho, daí o caminhão com o guincho atolou na neve também e tiveram que chamar um guincho ainda maior.
Um colega de trabalho me contou que um vizinho dele tinha chamado a polícia ontem porque achou que o carro dele tinha sido roubado do estacionamento da empresa onde ele trabalha. Mas depois de algum tempo de investigação, descobriu que o carro estava no mesmo lugar onde ele tinha deixado, só debaixo de uma montanha de neve. Só porque mesmo que essas coisas acontecem!
…olhando essa foto do centro de Reykjavík, dá pra ver essa história é bem possível:
Nesse ano eu passei a virada de ano aqui na Islândia, em casa mesmo. O mais interessante do reveilon na Gelolândia é a tradição das família comprarem grandes quantidades de fogos de artifício para soltarem exatamente na virada, e o resultado é que o céu das cidades islandesas fica repleto de fogos coloridos em todas as direções que você olha.
Esse vídeo eu fiz da varanda do meu apartamento na cidade de Hafnarfjörður, que é um subúrbio da capital Reykjavík: