Na semana passada eu fiz um curso na Escola dos Elfos. O
diretor da escola é Magnús Skarphedinsson, irmão de um
ministro do governo, e a maior autoridade islandesa em
elfos e outros assuntos sobrenaturais.
Grande parte dos islandeses acredita em espíritos da
natureza. Na verdade, uma pesquisa recente revelou que
53% dos islandeses acreditam em elfos. Existem várias
ruas em Reykjavík que contornam grandes rochas que em
qualquer outro lugar teriam sido removidas para que a
estrada pudesse ser construída em linha reta, mas aqui na
Islândia, quando é uma rocha que se acredita que elfos
moram ali, os engenheiros sabem que é melhor contorná-la.
Uma história recente e interessante é a de uma rua
chamada Álfhólsvegur (Rua da Colina dos Elfos) que fica
em Kopavógur, um subúrbio de Reykjavík. Quando essa rua
foi pavimentada, havia um grande rochedo no caminho
planejado pela rua, e a prefeitura tentou remover esse
rochedo mas à cada tentativa um acidente acontecia - um
cabo se rompia, alguém caía e quebrava a perna, um trator
quebrava, etc. Depois de vários desses acidentes, a
prefeitura decidiu contratar um médium para vir negociar
com os elfos. O tal médium conseguiu fazer um acordo com
os elfos de que a rocha seria movida apenas alguns metros
para o lado da rua. Não houve mais acidentes e a rocha
foi movida. Hoje nessa rua esse rochedo entre as casas de
número 82 e 86, os elfos vivem na rocha que tem o número
84 na rua. Verdade mesmo.
Bom, voltando à escola. Eu fui no curso sem saber o que
esperar das aulas e do material didático. No final das
contas eu achei bem interessante. O diretor de escola tem
nos últimos 20 anos colecionado depoimentos de mais de
700 pessoas de toda a Islândia sobre contatos que eles
tiveram com o húndufolk (povo oculto) os elfos. Ele
também reuniu os relatos de textos islandeses da idade
média sobre o assunto. Durante as aulas ele discutiu os
aspectos em comum entre todos os depoimentos, de que os
elfos ou povo oculto islandeses são do mesmo tamanho dos
humanos e com a mesmo aparência, e que são invisíveis ao
humanos. Suas casas e animais de fazenda também são
invisíveis. Algumas pessoas tem o dom de ver os elfos, já
o resto só consegue ver os elfos quando eles querem ser
vistos. Eu achei essa discussão fascinante. Segundo o
diretor da escola, 4000 pessoas por ano frequentam a
escola.
Tivemos também um passeio pelos arredores de Reykjavík e
visitamos rochas que foram identificadas por médiums como
sendo casa dos elfos. As casa dos elfos não podem ser
vistas pelos humanos, elas existem num tipo de dimensão
paralela, segundo o professor, e eles escolhem
construí-las em lugares onde existem rochas no nossos
mundo para evitar que os humanos construam algo no lugar
e assim interfiram com a energia do local. Uma das rochas
que visitamos tinha uma história interessante, ela fica
numa região em que foi construída há algumas décadas
atrás uma granja. Quando os donos da granja resolveram
tentar retirar a rocha para poderem expandir um dos
galpões, as galinhas pararam de botar ovos, de mais de
quinhentos ovos por dia, passou para zero. Somente quanto
desistiram de movar a rocha é que as galinhas começaram a
botar ovos novamente. Magnús, o diretor da escola, nos
mostrou recortes de jornal da época falando que as
galinhas dessa granja tinham mesmo misteriosamente parado
de botar ovos.
Isolamento
Uma questão interessante que foi discutida durante o
curso foi a razão porque uma proporção muito maior dos
islandeses acreditam em elfos e outros serem
sobrenaturais do que em outros países. Um argumento
interessante nessa discussão foi o de que o movimento do
Iluminismo do século XVIII, que pregou a razão e as
ciências e também o abando no das superstições, nunca
chegou na Islândia. De fato eu ainda não havia pensado
nessa questão do isolamento da Islândia nos séculos entre
o período víking e a era moderna. Acontece que entre os
séculos XVI e XVIII, num período de trezentos anos, não
existia um único navio na Islândia e navios estrangeiros
só visitavam a Islândia uma ou duas vezes por ano
trazendo notícias do mundo além da ilha. Quando o rei da
Dinamarca, e também rei da Islândia que foi parte da
Dinamarca por 400 anos, morreu em 1662, por exemplo, seus
súditos islandeses só ficaram sabendo da morte do rei
cinco anos depois do ocorrido.
Com esse nível de isolamento, um clima extremamente
hostil e longos invernos, não é de espantar que os
islandeses tenham se apagados mais às lendas e
superstições do que os outros países europeus.
Especialista Diplomado
No final do curso, que dura um dia, eu recebi um diploma
de "Especialista em Elfos". Vou incluí-lo no meu
currículo!
A questão de se eu acredito ou não na existência dos
elfos, acho que vou responder da maneira clássica dos
islandeses: "Acreditar mesmo, eu não acredito, mas também
não duvido que existam!". Agora falando sério, achei
interessante aprender mais sobre essa parte da cultura e
do folclore da Islândia.