Nesse ano eu passei a virada de ano aqui na Islândia, em casa mesmo. O mais interessante do reveilon na Gelolândia é a tradição das família comprarem grandes quantidades de fogos de artifício para soltarem exatamente na virada, e o resultado é que o céu das cidades islandesas fica repleto de fogos coloridos em todas as direções que você olha.
Esse vídeo eu fiz da varanda do meu apartamento na cidade de Hafnarfjörður, que é um subúrbio da capital Reykjavík:
Hoje, dia 23 de dezembro, é tradicional na Islândia de se comer um peixe chamado “skata”, um tipo de arraia, que é servido apodrecido (ou fermentado. O fedor desse peixe apodrecido é inacreditável, é de se lacrimejar só de ficar no mesmo ambiente.
Hoje no trabalho um dos meus colegas passou perto da minha mesa eu eu senti o fedor do tal peixe. Quando perguntei, ele confirmou que tinha ido à um restaurante na hora do almoço para comer a tal “iguaria”, que tinha obviamente impregnado as roupas dele com o seu mau chuiro distinto.
Eu já comi bem pouco esse peixe algumas vezes, com um bloco de manteiga acompanhando pra ajudar a descer, mas eu não consigo comer, o cheiro é forte demais. Tem gente que até cozinha esse peixe no quintal, porque senão a casa fica com esse cheiro horrível por dias.
Outra tradição de hoje, o dia que os islandeses chamam de Þorláksmessa (“a Missa do Santo Thorlákur” - o santo padroeiro da Islândia), é terminar de comprar os presentes de natal nesse dia. As lojas ficam abertas hoje até às 11 da noite.
Desde que mudei aqui para a Gelolândia eu sempre visito os mercados de natal nessa época de fim do ano. Gosto de conferir os enfeites, especialmente os que incluem o Gato do Natal e as figura natalinas islandesas, e mais as comidas, artesanato, etc. Nesse ano tive a agradável surpresa de descobrir vários novos mercados de natal, fazendo desse fim de ano o de clima mais natalino até agora.
O mercado de natal que sempre visitei é o de Hafnarfjörður, um dos subúrbios da Grande Reykjavík, esse me parece ser o mais tradicional e mais movimentado dos que eu conheço. E como eu moro em Hafnarfjörður, é pertinho e vale à pena fazer algumas vezes a curta caminhada para conferir as barracas. Esse mercado tem bastante enfeites de natal, tem um palco com atrações freqüentes para crianças e também corais cantando músicas natalinas, e ainda uma barraca do convento de freiras polonesas onde eles vendem enfeites que são sempre populares com os islandeses.
Um dos mercados de natal novos nesse ano é o de Kopavogur, outro subúrbio da capital. Esse tinha mais roupas e acessórios, e nem tantos enfeites, mas ainda assim algumas coisas interessantes para se conferir.
E finalmente, outra novidade desse ano, é o mercado logo no centro de Reykjavík.
A Islândia tem tradições de natal bem diferentes, e realmente únicas mesmo entre os países nórdicos.
A tradição aqui não é de um só Papai Noel, mas treze Papai Noeis diferentes, que vem das montanhas um a um nos 13 dias antes do natal. Nos tempos a crença é que ele vinham apenas para pregar peças e roubar comida e utensílios das casas das pessoas. Hoje em dia ainda se acredita nessa parte de pregar peças, mas também existe a tradição de que eles deixam pequenos presentes para crianças que deixam os sapatos na janela. Quer dizer, as crianças comportada ganham presentes, e as mal-comportadas ganham uma batata. Ja perguntei à alguns amigos, que confirmaram terem ganhado batatas dentro do sapata na janela em algumas ocasiões quando crianças.
Então, para as crianças islandesas, o nata significa ganhar treze pequenos presentes nos treze dias antes do natal, esse que são dos Papai Noéis que vivem nas montanhas, e na véspera de natal mesmo elas ganham um presente que é dos pais.
Existem também outras lendas não tão boas assim para as crianças islandesas. Uma das mais aterrorizantes é a lenda da Grýla, que é uma monstra enorme (uma troll) que é a mãe dos treze Papai Noéis, e ela tem um apetite voraz por criancinhas mal-comportadas. Essa lenda é tão assustadora, que foi passada até uma lei em 1746 proibindo pais de usarem a lenda de Grýla para aterrorizar crianças.
Outro perigo natalino é o Gato do Natal. Ele é um gato monstruoso, do tamanho de uma casa, que ronda a Islândia na noite de véspera do natal e come as crianças que não tem roupa nova para vestir no natal. Por isso, até hoje, é tradição vestir algo novo no natal, nem que seja um par de meias. Eu acho muito bacana as decorações de natal aqui na Islândia que mostram o Gato do Natal, sempre bem assustador. Já ouvi dizer que a origem da lenda do gato vem do fato de que nos velhos tempos as crianças costumavam a tecer suas próprias roupas, e os pais então usavam a ameaça do gato para fazer as crianças trabalharem mais rápido para terminar as roupas, porque senão elas seriam comida pelo gato no solstício de inverno.
Nesse ano a prefeitura de Reykjavík organizou uma espécie de exibição misturada com caça ao tesouro que eu achei muito legal. Eles colocaram projetores em vários lugares do centro da cidade que projetam animações dos Papai Noéis, e da Grýla e do Gato do Natal, em prédios e casas em certos pontos do centro da cidade. fizeram um mapa gratuito mostrando as áreas das projeções, mas sem ser muito específico, para as pessoas terem que procurar cada projeção. Quem encontrar todas as sete criaturas e responder algumas perguntas sobre cada uma delas pode entrar num sorteio para um prêmio. Eu achei bem legal a idéia e me diverti bastante procurando cada uma das criaturas no centro de Reykjvík. Abaixo está um video que eu fiz das projeções das criaturas do natal islandês.
A música do video é um antigo poema sobre o Gato do Natal, nessa versão sendo cantado pela cantora islandesa Björk.
Hoje é o "Dagur íslenskrar tungu", em que os islandeses celebram a sua língua, todo ano no 16 de Novembro, dia do aniversário de nascimento de Jónas Hallgrímsson, um dos grandes poetas islandeses.
Os islandeses tem enorme orgulho da sua língua, que mudou muito pouco nos mais de mil anos desde a colonização do país, tanto que uma pessoa islandesa pode ler hoje sem dificuldade um texto escrito na era Viking.
Esse orgulho se reflete num esforço para preservar a língua, com por exemplo, um departamento do governo que inventa novas palavras para novas coisas, para que assim não seja necessário importar palavras estrangeiras. Computador, por exemplo, é "tölva" em islandês, uma mistura de "tala" (número) e "völva" (vidente).
Mesmo com esse esforço para proteger a língua islandesa, a língua oficial com menos falantes do mundo, eu tenho notado nos últimos anos alguns termos estranhos usados no dia-à-dia pelos islandêses, importados do inglês, como "adda" (adicionar alguém no Facebook), "blogg" (escrever num blog), gemsi (telefone celular), etc.
Aproveitando o tema desse dia, vou fazer um desabafo aqui. A língua islandesa se tornou pra mim algo tão frustrante, que vejo como um dos piores aspectos de se morar na Islândia, e que em alguns dias me faz questionar minha decisão de mudar pra cá. Prontofalei. Sério, entes de mudar pra Islândia eu achava que eu era bom em línguas, mas desde então venho questionando essa opinião sobre minha aptidão linguística. Eu já fiz um ano de aulas de islandês em Londres antes de mudar, e dois anos de aulas de islandês na maior escola de línguas aqui, concluindo todo o curso lá, depois fiz o Diploma em Islandês na Universidade da Islândia, e agora estou fazendo o primeiro ano do curso de bacharelado em Islandês Para Estrangeiros na Universidade. Foram cinco anos de cursos. E ainda assim, não falo com nenhum nível de fluência. Eu consigo entender o assunto geral de uma conversa, mas é isso. Frustrante.
Já ouvi dizer várias vezes que em média um estrangeiro morando na Islândia leva três anos para aprender a língua. Com meus quatro-anos-e-meio por aqui, estou claramente do lado errado dessa média. Já conheci gente que mora aqui a mais de dez anos e não fala quase nada. E já conheci também, claro, gente que aprendeu a língua em um ano. Varia com a aptidão e o esforço.
Se aprender islandés fosse um problema de sobrevivência mesmo, acredito que seria diferente. Mas como todos os islandeses falam inglês muito bem, fica fácil de sobreviver só com inglês. Mas ainda assim, claro, o resultado é um certo isolamento, já que assim não se acompanha bem as conversas ou reuniões no trabalho, não dá pra assistir televisão (se bem que julgando pela qualidade dos programas nacionais, isso pode ser uma vantagem), ou ler jornais e acompanhar as notícias.
A maior dificuldade que eu vejo com o aprendizado dessa língua, que é sem dúvida uma das mais complicadas em existência, é que o material de aprendizado é péssimo. Existe muito pouco material, e o que existe é bem defasado em termos de técnica de ensino. O livro que estou usando nas aulas na universidade, por exemplo, foi escrito há vinte anos atrás, e já era provavelmente antiquado já naquela época. Não existe um guia de conjugação de verbos mais comuns, ou um guia de declinações mais usadas, ou nada desse tipo que é comum se ver para outras línguas. E quando você está tentando aprender uma língua em que todos os nomes, pronomes e advérbios tem casos de declinação que variam com número, gênero e grau, e sem nenhum tipo de regularidade, qualquer material que ajudasse seria bem vindo.
Já me aconselharam várias vezes de instituir dias em casa em que só se fala islandês. Mas é complicado. O resultado pra mim desses dias, geralmente, é um silêncio, já que eu evito falar qualquer coisa porque não sei bem como dizer, e minha noiva fica quieta por preguiça de falar e não ser entendida e ter que ficar explicando! hahahaha
E Deus abençoe o Google Translate! Logo quando mudei pra cá, não havia suporte à língua islandesa no Google Translate, e não havia nenhum dicionário de islandês online. Então quando recebendo um email em islandês no trabalho eu tinha que pegar um dicionário e tentar entender palavra por palavra, o que é bem difícil em um texto com muitas palavras declinadas em formas diferentes do que se encontra no dicionário. Hoje a situação já é bem fácil, com Google Translate funcionando razoavelmente bem para traduzir islandês, e assim posso copiar e colar emails inteiros no abençoado site de tradução do Google.
Bom, feliz Dia da língua Islandesa. E para os que estão planejando entrar na empreitada de aprender islandês, deixo aqui mais uma vez a melhor descrição dessa empreitada que já ouvi dizer: "Aprender islandês é como fazer tatuagem na bunda. É um processo longo e doloroso, e você raramente tem a chance de mostrar o resultado."
Um relatório foi publicado nessa semana passada mostrando que a Islândia e agora o segundo país na lista dos com maior índice de obesidade no mundo, perdendo apenas para os EUA.
Quando comentando sobre isso, os jornais locais estavam dizendo que há dez anos atrás era raro mulheres grávidas chegarem ao hospital para o parto pesando mais de 100 quilos, mas que isso hoje é uma ocorrência diária, e que algumas chegam a pesar até 180 quilos. E isso forçou o hospital a recentemente trocar todas as camas das salas de parto para camas capazes de agüentar até 190 quilos.
A razão desse nível de obesidade é difícil de explicar, mas eu acredito que seja uma combinação de um estilo de vida sedentário, em parte por causa do clima constantemente ruim para se exercitar e praticar esportes lá fora, e também por uma mentalidade de se consumir tudo que pode, de sempre preparar muita comida e terminar tudo que está no prato, essa mentalidade talvez ainda resultante do fato de que há apenas duas geração atrás, a Islândia era um dos países mais pobres de Europa e onde por vezes realmente se passava fome.
Uma coisa de que sinto falta desde que mudei aqui pra Gelolândia é ir à restaurantes com mais freqüência, como é mais comum para a classe média brasileira, e também na Inglaterra onde morei por sete anos antes de mudar pra cá. Aqui na Islândia as pessoas não tem o hábito de freqüentar restaurantes porque são sempre muito caros. Normalmente só e vai à restaurante quando é alguma ocasião para se comemorar.
Na semana passada fui com a minha noiva à um bom restaurante italiano no centro de Reykjavík considerado de preço médio. O jantar, com entradas simples e pratos de massa, sem tomar vinho, ficou em pouco mais de 10,000 Kr (cerca de R$150,00) para duas pessoas.
Acho que é por causa do alto custo de comida mesmo, que todas as empresas que eu já vi por aqui de porte médio pra grande tem uma cantina para os empregados almoçarem à preços mais amigáveis, porque se fosse para comer fora todo dia como se faz em outros países, o salário não ia dar pra nada!
Um amigo me mandou essa imagem à baixo, ilustrando a disparidade dos nomes da Islândia (“Terra do Gelo”) e Groenlândia (“Terra Verde”), que achei bem engraçada. Realmente, os nomes parecem trocados, já que há muito mais verde na Islândia e mais gelo na Groenlândia.
A origem dos nomes dos países é bem interessante. A primeiro nome da Islândia foi Snæland (“Terra da Neve”), dado pelo “descobridor” da ilha, um viking norueguês chamado Naddoddr no ano 850. Alguns anos mais tarde, o país foi rebatizado de Garðarshólmi (“Ilhota de Gardur”) por um viking Sueco. Finalmente, no ano 870 a Islândia foi visitada pela primeira vez por um viking que planejava mesmo chegar à ilha, os outros que tinham chegado à Islândia antes tinham se perdido no Atlântico Norte, por um viking norueguês chamado Hrafna-Flóki Vilgerðarson. Flóki passou vários meses na Islândia, mas o inverno foi muito mais rigoroso do que ele esperava, e diz a lenda que ele subiu numa montanha e olhou para o fjord lá embaixo, e vendo só gelo, ele deu o nome de Ísland (“Terra do Gelo”) ao país. Ele então voltou para a Noruega no verão seguinte e disse à todos que a Terra do Gelo não tinha valor nenhum e nada crescia por lá.
Já a Groenlândia recebeu o nome “Terra Verde” do viking norueguês chamado Eiríkur O Vermelho, que havia sido banido da Noruega por virtude de alguns assassinatos e havia migrado para a Islândia. Na Islândia, ele novamente matou um vizinho, e assim foi novamente banido. Sem ter para onde ir, ele foi ao mar sozinho procurar por terras que haviam sido avistadas ao oeste. Ele passou três anos sozinho na Groenlândia, e depois para a Islândia fazendo o maior golpe de propaganda enganosa da história, dizendo à todos que havia descoberto uma nova terra tão boa que se chamava “Terra Verde” - e funcionou, ele voltou para a Groenlândia com uma frota de 25 navios cheios de fazendeiros prontos para tomar terras como seguidores de Eiríkur.
Um dos espetáculos mais fantásticos que se pode observar aqui na Gelolândia é um fenômeno chamado Aurora Boreal, que produz uma faixa de luz brilhante esverdeada que dança no céu. Auroras são comuns nas noites islandesas, e aparecem nas noites mais frias e de céu limpo.
A semana passada foi ótima para se observar a aurora na região da capital, e eu aproveitei para bater algumas fotos.
O melhor lugar para se observar esse fenômeno é longe das luzes da cidade. Como Reykjavík é uma cidade pequena, basta viajar dez minutos de carro para chegar ao campo e ter uma visão perfeita desse espetáculo mágico de luzes no céu.
Nesse último sábado tivemos a Noite da Cultura em Raykjavík (Menningarnótt), um evento anual que acontece desde 1996, com atrações culturais durante o dia e noite pelas ruas da capital islandesa.
As ruas do centro de Reykjavík estavam cheias, com 100 mil pessoas, um terço da população do país, comparecendo à festa. O dia abriu, como é tradicional, com a maratona anual de Reykjavík, e estava um dia bonito de sol.
Eu passei a tarde passeando, conferindo as várias apresentações de teatro, musica, pintura, e mercados de arteanatos espalhados pelo centro da cidade.
Muita gente mesmo nas ruas estreitas do centro da capital…
Fiquei com a impressão de que nesse ano os eventos foram numerosos mas de porte menor que nos anos anteriores, e com um foco bem maior em artistas islandeses do que artistas estrangeiros - provavelmente um efeito da crise financeira que ainda aflige o país.
Uma atração especialmente interessante foi que, o maior prédio de Reykjavík, a “Torre 1”, com uma fechada coberta de vidro, construído como um símbulo da prosperidade econônica islandesa, e que desde a crise está vazio por falta de inquilinos, estava aberto ao público. Eu fui até o topo, no décimo-nono andar, e realmente a vista de lá é magnífica. Esse prédio era pra ser parte de uma série de torres no centro financeiro da cidade, mas com a crise e falência da construtora e dos bancos, acabou ficando como um símbulo solitário ao colapso financeiro.
De lá de cima, a cidade, com seus telhados coloridos, parece de brinquedo…
Pelas ruas de Reykjavík, encontrei até uma brasileira, que estava pintando o rosto de crianças e vendendo lembranças de Manaus.
A nova sala da concertos e centro de conferências da capital, chamado Harpa, foi oficialmente aberta no Sábado. O prédio fica logo no porto de Reyjavík, na beira do mar, e tem uma aparência que salta aos olhos, com centenas de painéis de vidro em ângulos diferentes refletindo o brilho do sol no mar, fazendo um efeito quase que como um caleidoscópio.
E, é claro, o famoso cachorro quente do “Bæjarins beztu” ( “O Melhor da Cidade”), uma verdadeira instituição da capital, e frequentemente chamado de “O Cachorro Quente do Clinton”, devido ao presidente americano ter comido lá durante uma visita à Islândia, estava sempre com fila o dia todo.
O dia fechou com uma apresentação de canhões de luzes coloridas sobre a sala de concertos, e com fogos de artifício.