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O dia-à-dia da crise

O colapso da economia islandesa começou há três semanas atrás, E nesse tempo recorde a economia do "Tigre Ártico" foi reduzida à ruínas. Os três bancos comerciais islandeses faliram e foram nacionalizados e a moeda islandesa perdeu tanto valor que é praticamente impossível usá-la no mercado internacional. Mas, e quanto ao dia-à-dia atual, como estão as coisas? É essa pergunta que vou tentar responder aqui.

Apesar do colapso da economia, para a maioria dos islandeses ainda não se sente muita diferença no dia-à-dia, só mesmo a alta nos preços não só de produtos importados mas dos essenciais também. O preço do litro de leite, por exemplo subiu 11% na semana passada.

É claro que a coisa é diferente para os centenas de trabalhadores que perderam seus empregos nas últimas semanas e que enfrentam sérias dificuldades em conseguir um novo emprego num mercado onde ninguém está contratando. Só um dos bancos, Landsbanki, sob administração do governo, demitiu um terço dos seus empregados, 500 pessoas. Um conhecido meu que estava trabalhando num escritório do banco na Espanha encontrou simplesmente a porta fechada na semana passada, com um aviso de que os islandeses deveriam pagar sua passagem de volta à Islândia com dinheiro do próprio bolso.


Incerteza

A palavra que melhor define a situação atual seria "incerteza". O clima geral é de que ninguém sabe ao certo o que vai acontecer nos próximos meses, mas todos sabem ainda veremos várias empresas fechando as portas e muita gente sendo demitida. Tudo o que se fala no momento é sobre a crise e as opiniões de cada um sobre quais empresas vão falir e quais vão conseguir sobreviver a crise.

Nos últimos dias os jornais tem especulado bastante sobre a situação da maior empresa islandesa, a Actavis, um dos maiores fabricantes de medicamentos genéricos do mundo, com mais de 11 mil empregados em 40 países, e arrecadação anual de 1.7 bilhões de euros. Ficou claro nessa semana que a Actavis tem uma dívida de 4 bilhões de euros com o Deutsche Bank, o que desencadeou os boatos de que a empresa poderia ser vendida, além do fato de que o dono da Actavis era dono de 45% de um dos bancos falidos. O boatos continuam.

Outro gigante da economia islandesa que anda no momento na corda bamba é Baugur, uma empresa que é dona de um império que inclui metade do setor de varejo da Inglaterra. O dono do Baugur é o bilionário Jón Ásgeir, o inimigo jurado do presidente do banco central islandês, e que costumava a ser dono de um terço de um dos bancos falidos. Nas palavras de Jón, a venda forçada e subseqüente nacionalização do banco Glitnir pelo governo islandês foi "o maior assalto à banco da história".


Frustração

Além do clima de incerteza, ha também muita frustração, podemos chamar até de raiva, no momento. Os alvos principias dessa frustração são: o banco central islandês e seu presidente Davið Oddsson (por não ter prevenido essa bagunça com limites no volume de investimentos e dívidas dos bancos), o governo britânico (por ter congelado o patrimônio dos bancos islandeses e assim causado a falência do maior banco islandês), e por último os bilionários islandeses que tem que leva parte da culpa por construírem seus impérios financeiros tão precariamente.

Durate o fim de semana houve uma manifestação em Reykjavík pedindo a renúncia de Davið Oddsson, presidente do banco central. Essa manifestação não parece ter sido muito grande, apenas algumas centenas de pessoas pelo que eu li. Ainda assim, protestos de rua não são parte da tradição islandesa, o que mostra o nível de frustração do povo. Eu prevejo protestos maiores e mais freqüentes no futuro.


Quanto vale a krona?

A situação da moeda islandesa, a krona, é verdadeiramente bizarra no momento. O dólar no início do ano valia 60 kronur, chegou a valer 128 na semana passada, e no momento está em 112. Pelo menos essa e a cotação oficial. A verdade, no entanto, é que a krona está praticamente sem valor nenhum no mercado internacional e que para os islandeses está praticamente impossível comprar moeda estrangeira.

Dentro da Islândia, o governo só permite no momento a compra de moeda estrangeira, pela cotação que o governo define diariamente, apenas para aqueles que estão com passagem aérea na mão.

O mais grave para empresas islandesas é que remessas de dinheiro para o exterior estão proibidas no momento, com exceção das remessas destinadas à compra de alimentos ou medicamentos. Com essas restrições muitas empresas islandesas estão encontrando sérias dificuldade - vamos lembrar mais uma vez que praticamente tudo nesse país é importado. A empresa onde eu trabalho, por exemplo, só está conseguindo importar equipamentos de informática para seus clientes quando pagando por eles com dinheiro da filial da empresa na Dinamarca.

Envio de dinheiro para a Islândia também está praticamente impossível, simplesmente porque os bancos estrangeiros não confiam no banco central islandês. A maioria dos bancos estrangeiros no momento se recusa a enviar dinheiro para a Islândia, citando o problema de que o câmbio é indefinido e de que não confiam de que o dinheiro vá mesmo chegar nas mãos do destinatário.

A cotação da krona no exterior no momento é incerta. A maioria dos bancos se recusa a trabalhar com kronas, e os que aceitam a moeda islandesa estipulam sua própria cotação. Já ouvi dizer, por exemplo, que um banco suíço está usando a cotação de 400 kronur para 1 euro, enquanto a cotação oficial do governo islandês é de 150 kronur para 1 euro.

O banco central, que acabou nas últimas semanas com as pequenas reservas que tinha, precisa e dinheiro para usar no controle do valor da Krona. Parece que um empréstimo do FMI de 6 bilhões de euros vai sair em breve.
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