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Vizinhos nórdicos vem à ajuda da Islândia

Num encontro de emergência na Finlândia, ao qual compareceu também o primeiro-ministro islandês, os países nórdicos concordaram em oferecer ajuda à Islândia de forma coordenada.

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Como condição à essa ajuda, o empréstimo de 2 bilhões de dólares do FMI para a Islândia tem que ser aprovado, o que se espera deva acontecer no dia 10 de Novembro.

No final do encontro, Geir Haarde, primeiro ministro da Islândia, disse:

"Somos extremamente gratos ao apoio recebido durante o encontro em Helsinki. O apoio do grupo nórdico de países representa uma ajuda importante à Islândia. Nós sobreviveremos à crise e dela emergiremos como uma nação ainda mais forte. A Islândia está contando com a ajuda de seus vizinhos nórdicos para restaurar a economia islandesa depois da quebra dos bancos. A solidariedade expressada pelos países nórdicos é de extrema importância para nós. Também temos esperança que esse diálogo será um passa à frente para fortalecer a cooperação e aliança entre os países nórdicos frente à crise financeira que ameaça desestabilizar tantos países."

Haarde também declarou que a Islândia precisa, além dos 2 bilhões de dólares negociados com o FMI, de mais 4 bilhões de dólares para estabilizar a economia.


Pequenos vizinhos oferecem ajuda

Enquanto os primeiros ministros dos países nórdicos estavam reunidos nessa última semana em Helsinki, a Islândia recebeu ofertas de ajuda inesperadas de dois vizinhos: as Ilhas Faroes e a Groenlândia.

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As Ilhas Faroe, um grupo de ilhas entre a Grã-Bretanha e a Islândia que são uma província autônoma do Reino da Dinamarca, tem uma cultura e língua muita parecidas com a islandesa. As ilhas tem apenas 48 mil habitantes. O parlamento foroês ofereceu nessa semana um empréstimo de 50 milhões de dólares à Islândia.

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A Groenlândia, outra província autônoma do Reino da Dinamarca, apesar de ter um grande território tem uma população pequena de apenas 57 mil habitantes. O parlamento groenlandês declarou que a Islândia é "um amigo precisando muito de ajuda", e disse que apesar da Groenlândia estar enfrentando seus próprios problemas de orçamento doméstico, que seria possível fazer cortes necessários para possibilitar um empréstimo à Islândia igual ao oferecido pelas Ilhas Faroe, de 50 milhões de dólares.

A reação aqui na Islândia às ofertas de ajuda das Ilhas Faroe e da Groenlândia foi ambivalente. De um lado os islandeses estão gratos pela ajuda dos seus pequenos vizinhos e tocados pelo gesto, mas ao mesmo tempo se sentem humilhados pelo fato de as províncias dinamarquesas que são ainda tão menores que a própria Islândia agora se encontrarem em posição tão melhor ao ponto de poderem oferecer dinheiro ao antigo Tigre Ártico.
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Islandeses sendo maltratados no exterior

Nos últimos dias ouvi várias histórias de islandeses sendo maltratados no exterior, por causa da falência dos bancos islandeses que fez com que muita gente em vários países perdessem dinheiro.

Em Glasgow, no Reino Unido, um casal foi expulso de uma loja de roupas quando disseram que eram islandeses,

Em Londres, um homem islandês levou um cuspe na cara e muitos insultos quando casualmente revelou sua nacionalidade.

Na Dinamarca, uma mulher islandesa foi recusada a venda de um plano de telefonia celular, e o motivo alegado foi “não servimos islandeses aqui”.

E várias outras histórias. Praticamente todo mundo aqui tem uma pra contar de conhecidos no exterior.

É claro que os islandeses não tem culpa das ações dos bancos e dos governantes, e é muita ignorância culpar todo o povo de um país por perdas no mercado financeiro.


Carros arranhados

Algo similar está acontecendo dentro da Islândia contra os que são percebidos como ricos, ou como algo que veio a ser considerado pior que o próprio diabo, “banqueiros”. Ouvi dizer que muita gente que tem carros grandes e caros está encontrando seus carros arranhados e amassados, por islandeses que assumem que os dono dos carrões devem ser banqueiros, e logo responsáveis pela grave situação em que o país se encontra.

Uma história que eu ouvi foi de um senhor que havia acabado de estacionar seu carro, quando uma mulher veio correndo com um carrinho de supermercado e acertou o carro em cheio com o carrinho, amassando a porta do carro. A mulher gritava ofensas ao “banqueiro”, que na verdade não tinha nada a ver com bancos mas sim era um médico, e que tinha provavelmente ele mesmo perdido dinheiro na crise também.

Ao meu ver, esse tipo de atitude é ridícula, e mostra tanta ignorância quanto os maus tratos dos islandeses no exterior. Ainda pior - já que nesse momento de crise é necessário união e não ataques e ignorância.
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Protesto pede renúncia do primeiro-ministro

Aconteceu ontem um protesto em frente do parlamento em Reykjavík, pedindo a renúncia do primeiro-ministro Geir Haarde e do presidente do banco central Davið Oddsson, e a convocação imediata de eleições para formação de um novo governo. Segundo os organizadores, cerca de 2 mil pessoas compareceram ao protesto.

Os manifestantes também pediam que a Islândia entre para a União Européia, o que o governo atual é contra.

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Eu não sabia do protesto nesse fim de semana, mas parece que vai haver protesto todo fim de semana nas próximas semanas. Vou tentar comparecer ao próximo.
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"Não somos terroristas, Sr. Brown"

A crise financeira atual na Islândia tem causado vários problemas dentro do país, isso é certo, mas há ainda uma vítima da crise que pode não ser tão óbvia para aqueles que observam de fora: o relacionamento amistoso entre a Islândia e a Inglaterra.

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Os islandeses não vão esquecer tão cedo as ações do governo britânico nas últimas semanas, principalmente o uso de leis anti-terrorismo para bloquear o patrimônio dos bancos islandeses na Inglaterra, mesmo alguns bancos que não tinham nem relação nenhuma com o fundo de investimento Icesave que o governo britânico disse estar protegendo com suas ações. O tal bloqueio causou a falência e subseqüente nacionalização do maior banco islandês e o único banco que havia sobrado de pé depois da falência dos outros dois.

Na semana passada, o governo islandês fez uma declaração formal de protesto à OTAN e à União Européia contra o governo britânico.

Há também uma frustração muito grande na Islândia quanto à atitude atual do governo britânico, que está tentando forçar o governo islandês a assumir como divida do governo os 4 bilhões de libras (cerca de 6,5 bilhões de dólares) que os cientes britânicos tinham na filial britânica do falido banco islandês Landsbanki. Isso seria o equivalente de cada pessoa na Islândia tomar uma dívida de 20 mil dólares.

Enfim, os islandeses estão se sentindo como o menino baixinho e fraco no playground, que está sendo empurrado e intimidado pelo vizinho grande, forte, e maldoso.

Como uma reação à esta crise de relacionamento entre os dois países, e especialmente ao uso de leis anti-terrorismo na Inglaterra para o boqueio de bens dos bancos islandeses, surgiu o site InDefense,is (em islandês e inglês) que tem várias fotos de islandeses passando para o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, a mensagem de que não são terroristas. O site também tem uma petição que, no momento, já foi assinada por mais de 24 mil pessoas - um número considerável quando comparado à população islandesa de 300 mil.
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O dia-à-dia da crise

O colapso da economia islandesa começou há três semanas atrás, E nesse tempo recorde a economia do "Tigre Ártico" foi reduzida à ruínas. Os três bancos comerciais islandeses faliram e foram nacionalizados e a moeda islandesa perdeu tanto valor que é praticamente impossível usá-la no mercado internacional. Mas, e quanto ao dia-à-dia atual, como estão as coisas? É essa pergunta que vou tentar responder aqui.

Apesar do colapso da economia, para a maioria dos islandeses ainda não se sente muita diferença no dia-à-dia, só mesmo a alta nos preços não só de produtos importados mas dos essenciais também. O preço do litro de leite, por exemplo subiu 11% na semana passada.

É claro que a coisa é diferente para os centenas de trabalhadores que perderam seus empregos nas últimas semanas e que enfrentam sérias dificuldades em conseguir um novo emprego num mercado onde ninguém está contratando. Só um dos bancos, Landsbanki, sob administração do governo, demitiu um terço dos seus empregados, 500 pessoas. Um conhecido meu que estava trabalhando num escritório do banco na Espanha encontrou simplesmente a porta fechada na semana passada, com um aviso de que os islandeses deveriam pagar sua passagem de volta à Islândia com dinheiro do próprio bolso.


Incerteza

A palavra que melhor define a situação atual seria "incerteza". O clima geral é de que ninguém sabe ao certo o que vai acontecer nos próximos meses, mas todos sabem ainda veremos várias empresas fechando as portas e muita gente sendo demitida. Tudo o que se fala no momento é sobre a crise e as opiniões de cada um sobre quais empresas vão falir e quais vão conseguir sobreviver a crise.

Nos últimos dias os jornais tem especulado bastante sobre a situação da maior empresa islandesa, a Actavis, um dos maiores fabricantes de medicamentos genéricos do mundo, com mais de 11 mil empregados em 40 países, e arrecadação anual de 1.7 bilhões de euros. Ficou claro nessa semana que a Actavis tem uma dívida de 4 bilhões de euros com o Deutsche Bank, o que desencadeou os boatos de que a empresa poderia ser vendida, além do fato de que o dono da Actavis era dono de 45% de um dos bancos falidos. O boatos continuam.

Outro gigante da economia islandesa que anda no momento na corda bamba é Baugur, uma empresa que é dona de um império que inclui metade do setor de varejo da Inglaterra. O dono do Baugur é o bilionário Jón Ásgeir, o inimigo jurado do presidente do banco central islandês, e que costumava a ser dono de um terço de um dos bancos falidos. Nas palavras de Jón, a venda forçada e subseqüente nacionalização do banco Glitnir pelo governo islandês foi "o maior assalto à banco da história".


Frustração

Além do clima de incerteza, ha também muita frustração, podemos chamar até de raiva, no momento. Os alvos principias dessa frustração são: o banco central islandês e seu presidente Davið Oddsson (por não ter prevenido essa bagunça com limites no volume de investimentos e dívidas dos bancos), o governo britânico (por ter congelado o patrimônio dos bancos islandeses e assim causado a falência do maior banco islandês), e por último os bilionários islandeses que tem que leva parte da culpa por construírem seus impérios financeiros tão precariamente.

Durate o fim de semana houve uma manifestação em Reykjavík pedindo a renúncia de Davið Oddsson, presidente do banco central. Essa manifestação não parece ter sido muito grande, apenas algumas centenas de pessoas pelo que eu li. Ainda assim, protestos de rua não são parte da tradição islandesa, o que mostra o nível de frustração do povo. Eu prevejo protestos maiores e mais freqüentes no futuro.


Quanto vale a krona?

A situação da moeda islandesa, a krona, é verdadeiramente bizarra no momento. O dólar no início do ano valia 60 kronur, chegou a valer 128 na semana passada, e no momento está em 112. Pelo menos essa e a cotação oficial. A verdade, no entanto, é que a krona está praticamente sem valor nenhum no mercado internacional e que para os islandeses está praticamente impossível comprar moeda estrangeira.

Dentro da Islândia, o governo só permite no momento a compra de moeda estrangeira, pela cotação que o governo define diariamente, apenas para aqueles que estão com passagem aérea na mão.

O mais grave para empresas islandesas é que remessas de dinheiro para o exterior estão proibidas no momento, com exceção das remessas destinadas à compra de alimentos ou medicamentos. Com essas restrições muitas empresas islandesas estão encontrando sérias dificuldade - vamos lembrar mais uma vez que praticamente tudo nesse país é importado. A empresa onde eu trabalho, por exemplo, só está conseguindo importar equipamentos de informática para seus clientes quando pagando por eles com dinheiro da filial da empresa na Dinamarca.

Envio de dinheiro para a Islândia também está praticamente impossível, simplesmente porque os bancos estrangeiros não confiam no banco central islandês. A maioria dos bancos estrangeiros no momento se recusa a enviar dinheiro para a Islândia, citando o problema de que o câmbio é indefinido e de que não confiam de que o dinheiro vá mesmo chegar nas mãos do destinatário.

A cotação da krona no exterior no momento é incerta. A maioria dos bancos se recusa a trabalhar com kronas, e os que aceitam a moeda islandesa estipulam sua própria cotação. Já ouvi dizer, por exemplo, que um banco suíço está usando a cotação de 400 kronur para 1 euro, enquanto a cotação oficial do governo islandês é de 150 kronur para 1 euro.

O banco central, que acabou nas últimas semanas com as pequenas reservas que tinha, precisa e dinheiro para usar no controle do valor da Krona. Parece que um empréstimo do FMI de 6 bilhões de euros vai sair em breve.
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Visita à "Imagine Peace Tower"

No ano passado a Imagine Peace Tower, projetada por Yoko Ono em memória de seu marido Joh Lennon, foi instalada na ilha de Viðey, que fica bem perto de Reykajvík. Essa é uma torre de luz, basicamente um feixe concentrado de luz subindo aos céus, que pode ser visto de qualquer ponto na área de capital islandesa. Este é o segundo ano em que a torre é acesa, entre 9 de Outubro, o dia do aniversário de nascimento de Lennon até 8 de Dezembro o dia em que o ex-Beatle foi assassinado.

Nessa última quarta-feira aproveitei a oferta de Yoko Ono de passeios gratuitos de barco, e fui com alguns amigos visitar Viðey e sua torre de luz. A viagem de barco foi curta, menos de dez minutos ao som da música "Imagine" de John Lennon.

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Chegando em Viðey, fizemos a caminhada por um caminho de pedras até a base da torre, tentando ignorar o vento gelado da noite islandesa. Tenho que dizer que a torre em si é ainda mais impressionante quando vista de perto. A base tem cerca de dois metros de altura e é coberta com placa de pedra branca com a frase “imagine a paz” em dezenas de línguas diferentes.

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Antes de voltar ao barco, os visitantes todos, cerca de cem pessoas que vieram no barco, deram às mãos abraçando a torre e fizemos todos um momento de silencio em memória de Lennon e pedindo a paz. Foi um momento interessante até para os menos sentimentais entre nós do grupo, com todos em volta daquela torre e banhados na sua futurística luz azul, em quanto ao redor de nós havia nada além de uma pequena ilha e as luzes de Reykjavik fracas no horizonte.

Na volta, bebemos um chocolate quente num café no pequeno porto da ilha e voltamos para Reykjavík de barco, de novo ao som de “imagine aaaall the peeeeopleeeeeeee...”

Clique aqui para ver todas as fotos da visita à Imagine Peace Tower
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Análise: crise econômica na Islândia

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Eu não sou economista, mas já que também não o são nem o ministro da economia islandês (um veterinário) e nem o presidente do banco central islandês (um advogado), vou seguir em frente e fazer minha análise da crise atual e, na minha opinião, dos erros que resultaram na ruína da economia islandesa.


O pano de fundo

A atual crise financeira mundial começou, como todos sabem, nos EUA com as chamadas sub-prime mortgages, hipotecas de imóveis de alto risco que eram re-empacotadas como produto de investimento e revendidas para o mercado mundial. Quando ficou claro que esse grande volume de "dívidas tóxicas" não tinha nenhuma chance de ser pago pelos devedores originais, o pânico se espalhou e vários bancos americanos que envestiram pesado nesse tipo de investimento caíram. Com isso, bancos no mundo todo passaram a re-avaliar suas linhas e crédito para outros bancos, em caso de risco de falência dos bancos devedores, e essas linhas de crédito entre bancos começaram a secar. Esse é o pano de fundo para a crise islandesa.

Vamos dar uma olhada rápida agora no panorama do mercado financeiro islandês há um mês atrás. Os três bancos comerciais islandeses, sendo estes, Glitnr, Landsbanki e Kaupthing, representavam mais de 60% da economia do país, e juntos tinham em patrimônio de $150 bilhões de dólares, nove vezes, isso mesmo, nove vezes o PIB da Islândia. E até um mês atrás os três bancos estavam bem, não tinham investimentos em sub-primes americanos ou "dívidas tóxicas" e estavam os três dando lucro e crescedo. O que foi que aconteceu de errado com eles então? Ah, essa é uma história de pânico, erros e despreparo.


O primeiro grande erro do governo

A crise islandesa começou há duas semanas atrás. Com a crise nos EUA, as linhas de crédito entre bancos ficaram mais restritas, e foi então que o terceiro maior banco islandês, Glitnir, começou a ter problemas para financiar suas operações. Glitnir então pediu um empréstimo para o banco central islandês. Foi aí que o governo islandês cometeu o primeiro grande erro. Ao invés de dar ao Glitnir o empréstimo que o banco pediu, o banco central islandês decidiu nacionalizar o Glitnir, declarando todas as ações do banco de valor zero e tomando 100% do banco em poder do governo.

A nacionalização forçada do Glitnir é unanimemente considerada pelos islandeses hoje como um tremendo erro de enorme conseqüências. E tem mais, os islandeses acreditam que Glitnir foi nacionalizado como uma vingança pessoal do diretor do banco central islandês, Davíð Oddsson, contra seu inimigo jurado, o multi-bilionário islandês Jón Ásgeir Jóhannesson, que era grande acionista do banco. Parece que, por causa de uma vingança pessoal, Oddsson desencadeou um processo que ia terminar na ruína econômica do país.

O setor financeiro da Islândia, e a economia islandesa de forma geral, é um verdadeiro castelo de cartas. A nacionalização do Glitnir significou que muitas empresas e bancos perderam muito dinheiro, e passaram a ficar numa situação delicada.

No mercado financeiro internacional, com a notícia da nacionalização do Glitnir, a atenção dos bancos e investidores se voltou para a Islândia. Os investidores internacionais se assustaram com o fato dos bancos serem tão maiores do que o resto da economia islandesa, concluindo que assim seria impossível para o governo islandês socorrer qualquer outro banco que venha a falir - a conclusão foi de que qualquer dinheiro em bancos islandeses estaria correndo extremo risco. O resultado foi que as linhas de crédito se fecharam, e nenhum bancos mais emprestava dinheiro para bancos islandeses. Assim, apenas quatro dias depois, tendo levado um enorme prejuízo com a queda do Glitnir e agora sem acesso à crédito para financiar seu funcionamento, essa foi a vez do segundo maior banco islandês, o Landsbanki, chegar à beira da falência e também ser nacionalizado.

No espaço de uma semana, dois do três gigantes da economia islandesa caíram, mas ainda havia esperança de que o maior banco islandês e um dos maiores bancos da Europa, Kaupthing, ainda sobreviveria.


O segundo grande erro do governo e a retaliação (anti-?)terrorista britânica

Foi agora que o governo fez islandês fez seu segundo grande erro. Landsbanki era dono de um banco na Inglaterra chamado Icesave, que tinha mais de $5 bilhões de dólares em depósitos de clientes britânicos. Ao invés de negociar com cautela a situação desses clientes britânicos, o primeiro-ministro islandês declarou numa bravata que simplesmente o dinheiro havia sumido, e que os clientes britânicos não veriam nem um centavo de seus depósitos. O governo do Reino Unido retaliou congelando todo o patrimônio de todos os bancos islandeses no Reino Unido, incluindo o patrimônio do banco Kaupthing que ainda estava de pé e não tinha nada a ver com o banco Icesave de propriedade do falido Landsbanki.

Esse bloqueio do patrimônio dos bancos islandeses foi um absurdo por si só, em que o primeiro ministro britânico Gordon Brown, que vinha precisando de uma melhora de popularidade, se utilizou da lei anti-terrorismo inglesa (isso mesmo!) para fazer o tal congelamento.

Sem acesso ao seu patrimônio de mais de $10 bilhões de dólares no Reino Unido, na forma do banco Kaupthing Edge que operava em Londres, a sorte do banco Kaupthing estava fadada, e o banco foi nacionalizado, falido, dois dias depois do congelamento (anti-?)terrorista de seu patrimônio pelo governo britânico.


Conclusão

Essa é a história de como um país chamado por muitos de "Tigre Ártico" teve sua economia arrasada em questão de duas semanas. Os três grandes bancos se foram, os ingleses ainda querem seu dinheiro de volta, várias empresas da real economia islandesa correm agora o risco de quebrar porque tinham investimentos nos bancos falidos, o dólar subiu 110% contra a krona, e a Islândia anda por esses dias de chapéu na mão pedindo dinheiro para qualquer um que possa emprestar.

Para fechar essa minha análise, eu tenho que dizer que mesmo com o terrível estado atual da economia da Islândia, na minha opinião os fundamentos da economia que ainda são sólidos. A Islândia tem uma população de altíssimo nível de educação e com um forte espírito empresarial, o país tem grande riqueza energética, e ainda tem a riqueza dos mares que foi a base da incrível ascensão desse país que ainda há 100 anos atrás era um dos mais pobres do mundo e chegou a ser um dos mais ricos. Os próximos anos serão de recessão econômica, com certeza, mas a Islândia vai se recuperar, disso eu não tenho dúvida.

Repetindo a mensagem da faixa que vi hoje numa das rodovias de acesso à Reykjavík, colocada ali recentemente, com certeza com o intuito de animar os ânimos dos islandeses deprimidos com a crise atual - Áfram Ísland - Pra frente Islândia!
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Entrevista no Estadão

Conversei com um jornalista do jornal Estado de São Paulo hoje sobre a grave situação da economia islandesa. A reportagem deve ser publicada no caderno de economia do Estadão amanhã, dia 10 de Outubro.
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mais um dia, mais um banco cai

O maior banco islandês, Kaupthing, foi nacionalizado hoje para evitar sua completa falência. Essa é a terceira nacionalização de bancos na última semana, e completa a total quebra do sistema financeira na Islândia - agora todos os bancos islandeses foram nacionalizados à beira da falência, não sobrou nenhum. Até algumas semanas atrás os bancos islandeses tinham mais de 140 bilhões de dólares em patrimônio, que representava nove vezes o PIB da Islândia, e hoje eles não valem nada, as ações valem zero.

A situação com o dinheiro de clientes ingleses nos bancos islandeses está virando uma novela de acusações e ameaças entre os dois países. Os britânicos tinham mais oito bilhões de dólares em bancos islandeses, que o governo islandês já anunciou que não pretende devolver já que não tem nenhum dinheiro em caixa. Nas palavras do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, hoje: "Esta é uma situação extraordinária, onde um país, efetivamente, deu calote em outro." - Ele estava tentando justificar o uso, instituído hoje pelo governo britânico, de legislação anti-terrorismo para confiscar o patrimônio de bancos islandeses no Reino Unido.

O governo islandês parou hoje o mercado de câmbio e a bolsa de valores, que só vão reabrir na semana que vem. A cotação da coroa islandesa é incerta no momento, e ninguém quer ficar com coroas na mão. Cada empresa de cartão de crédito no momento está usando cotações diferentes que acham que seja a certa. Dirigi pelo centro de Reykjavík hoje e vi muita gente nas agências bancárias, algumas até com filas do lado de fora - imagino que seja gente retirando seu dinheiro para colocar embaixo do colchão, ainda mesmo que o governo tenha garantido que os depósitos dos islandeses estão seguros.

Foi também anunciada hoje a primeira onda de demissões dessa crise. O segundo maior banco islandês, Landsbanki, está sendo re-estruturado pelo governo e um terço da força de trabalho será cortada, o que significa que 500 empregados serão despedidos.
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"Poderia ser pior, você poderia estar na Islândia"

Esse foi o título do artigo publicado hoje no jornal britânico Guardian, e dá uma boa idéia da gravidade da situação da economia da Islândia no momento. A situação econômica na Inglaterra e na Europa em geral vai mal, mas aqui na Islândia está muito pior.

Nas últimas duas semanas, dois dos três maiores bancos islandeses foram nacionalizados para evitar a total falência, e seus acionistas perderam todo o dinheiro que tinham investido em ações dos bancos. O único banco islandês que sobrou de pé, o Kaupthing, recebeu um grande empréstimo do governo, mas mesmo assim a situação do banco é incerta.


Plano de resgate

Na última segunda-feira o governo islandês, em sua imensa sabedoria, anunciou que não era necessário nenhum pacote de resgate da economia, que tudo estava bem. Poucas horas depois, a moeda islandesa caiu mais 14% e mais um banco faliu. Na terça-feira, tendo então acordado para a gravidade da situação o governo anunciou um pacote de medidas para tentar estabilizar a economia.

O ponto central do pacote de resgate se concentra em dar poder ao governo de tomar controle de qualquer instituição financeira à qualquer momento. Outro ponto importante é que o patrimônio dos bancos e instituições financeiras, que se encontra 90% no exterior deve ser repatriado, assim como os gordos fundos de aposentadoria controlados pelos sindicatos, numa tentativa de se fortalecer a moeda islandesa.


A krona que ninguém quer

O dólar chegou a subir 110% nos últimos meses e a situações ficou tão feia que várias empresas estão tendo dificuldade em fazer remessas de dinheiro ao exterior porque ninguém quer comprar krona, e as reservar de moeda estrangeira no país secaram.


Primeiro Ministro precisando de guarda-costas

Saiu a notícia hoje de que o primeiro ministro islandês agora está andando com guarda-costas, depois de ter sido agredido numa academia de ginástica. Essa é a primeira vez na historia da Islândia em que um político anda com guarda-costas. Não me surpreende que alguém tenha agredido o primeiro ministro, afinal muita gente perdeu dinheiro nessa crise e há muita raiva no momento contra o governo.

Nessa semana vi várias vezes uma cena que me lembrou da minha infância. Toda vez que o primeiro ministro faz um pronunciamento na televisão, e foram vários nos últimos dias, todo mundo se reúne em volta de televisão, como costumávamos a fazer no Brasil.


Calote nos britânicos

O segundo maior banco da Islândia, que foi nacionalizado no início da semana, tem um banco na Inglaterra que foi fechado nessa semana. O banco tinha mais de 5 bilhões de dólares em depósitos de clientes ingleses. A mensagem do governo islandês, que tomou o banco é: não temos dinheiro para restituir os depósitos, o banco simplesmente faliu e o dinheiro foi perdido. O governo britânico parece que vai garantir esses depósitos, e disse hoje em tom nada amigável que vai "entrar na justiça" contra o governo islandês.


Bom, a situação por enquanto é caótica e incerta no país, que enfrenta agora um total colapso da economia. Espero que quando a tempestade passar, que o nível de vida aqui na Gelolândia no final das contas não tenha sido afetado demais pela crise.

Em resposta ao leitores que perguntaram sobre a minha situação pessoal frente à essa crise, primeiro obrigado pela preocupação. A empresa onde eu trabalho não tinha investimentos nos bancos e por isso não foi tão afetada pela crise, apesar de que vários dos clientes faliram e isso tem um impacto negativo. O meu emprego, e da minha noiva que trabalha num banco, por enquanto estão seguros; mas como para os islandeses também, à cada dia não se sabe se no final do dia ainda teremos um emprego. Temos que viver um dia de cada vez e torcer para que essa crise passe logo.
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Crise na Terra do Gelo

Estou na capital americana no momento, fazendo um curso pro trabalho, e por aqui tudo o que se ouve falar é sobre a crise econômica no mercado financeiro que já derrubou vários bancos americanos nas últimas semanas. O que está me preocupando, no entanto, é a crise na Islândia que vem piorando à cada dia.


Krona continua caindo

A krona atingiu hoje o menor valor dos últimos 16 anos, tendo desvalorizado 22% só nessa última semana, e mas de 70% desde o início do ano. O dolar chegou a 110 kronas hoje, sendo que no inicio do ano estava em 70 kronas.

O índice de inflação dos últimos 12 meses chegou a 14.5% nesse mês, a maior inflação dos últimos 18 anos.

Ouvi dizer que o real também perdeu um pouco do valor recentemente, mas não acredito que tenha perdido tanto quanto a moeda islandesa, 70% nos últimos 10 meses. Também, exsite uma grande diferença quanto ao impacto da desvalorização da moeda entre a Islândia e o Brasil: na Islândia absolutamente tudo que não é peixe ou laticínio é importado, o que significa que qualquer variação na moeda se traduz imediatamente em inflação.

Ainda, o que faz o problema ser ainda maior é que cerca de um terço dos financiamentos de imóveis na Islândia são em moeda estrangeira, como são 70% dos empréstimos das empresas islandesas. Grande parte dos financiamento de carros é em moeda estrangeira também. Agora muita gente está numa situação de não conseguir mais pagar o financiamento da sua casa, pagamentos que em menos de um ano quase dobraram.

Um banco americano hoje apontou a krona islandesa como uma das moedas menos estáveis do mundo, melho apenas do que as moedas do Zimbabwe e Turquemenistão.

Parece que a maior causa para a queda da krona é a falta de confiança do mercado internacional no sistema financeiro islandês. O banco central islandês simplesmente não tem dinhero suficiente para socorrer todos os bancos do país.

E falando em bancos...


Bancos em apuros

Há poucos dias atrás o governo islandês gastou dois bilhões de dólares (que havia pegado emprestado para tentar conter a queda da krona) comprando 75% das ações do terceiro maior banco da Islândia, chamado Glitnir, para evitar o colapso do banco. Hoje, o maior banco da Islândia, o Landsbanki, vendeu todas as operações estrangeiras para levantar fundos para se manter em funcionamento.

E mesmo daqui de longe já fiquei sabendo de boatos de várias das maiores empresas islandesas estarem à beira da falência.

Os jornais no momento mencionam com alarde qualquer encontro entre diretores de bancos e o governo. Na noite passada, por exemplo, de acordo com os jornais, o diretor de outro grande banco islandês chamado Kaupthing se encontrou com o primeiro ministro às 10 das noite.


Governo Nacional de emergência?

A situação da economia islandesa está tão ruim que hoje o presidente do banco central islandês sugeriu que o governo atual seja dissolvido e que um "governo nacional" seja formado com participação de todos os partidos presentes no parlamento islandês, para tentar conter a crise financeira. A última vez que um governo nacional de emergência foi instituído foi em 1939.


Acabou a festa

Acho que vai ser uma adaptação difícil para os islandeses que se acostumaram com o milagre econômico dos últimos cinco anos, e que se endividaram para manter um nível de vida que agora pode ser que não mais consigam manter. Sempre fiquei impressionado com todos os carros novos e enormes na Islândia por exemplo, muitos que custam mais de cem mil dólares. Vejo com mais frequência carros de luxo em Reykjavík do que aqui em Washington onde estou passando essa semana. Toyota Land Cruiser é carro para carpinteiro na Islândia, quem quer parecer rico compra porsches, BMW e Hummers. Aliás, o número de Hummers em Reykjavík beira o absurdo.

Essa festa de carros novos caríssimos todo ano e atíssimo nível de vida, tudo por meio de financiamentos crédito fácil e barato acabou. Vai ser uma adaptação difícil pra muita gente.
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