Quem vem seguindo notícias sobre a Islândia nos jornais e pela internet muito provavelmente já ouviu falar em Icesave. Eu venho tentando evitar o assunto, mas já que o assunto vem se estendendo tanto, ao ponto de merecer mesmo a palavra islandesa "saga", então vamos lá.

A saga do Icesave começou com o colapso do sistema financeiro islandês em Outubro de 2008. Num espaço de duas semanas naquele mês, todos os três bancos comerciais islandeses, que juntos haviam crescido até alcançar 15 vezes o tamanho do PIB islandês, faliram. Um desses bancos, o Landsbanki, havia aberto anos antes um banco de investimentos na Inglaterra e Holanda chamado Icesave. Oferecendo juros bem acima do mercado, o Icesave em dois anos atraiu 5 bilhões de dólares de depósitos dos ingleses e holandeses.
Com a falência do Landsbanki e em conseqüência o fechamento do Icesave, os governos da Inglaterra e Holanda garantiram os depósitos de seus cidadãos no Icesave, mas insistem agora que a Islândia pague de volta os 5 bilhões de dólares. Essa é uma dívida equivalente à cerca de 16 mil dólares para cada cidadão islandês, e equivalente à quase metade do PIB islandês. Essa dívida, juntamente à divida ao FMI, representa um fardo financeiro sobre o país maior do que aquele sobre a Alemanha depois da Primeira Guerra mundial.
O pior é que o FMI afirma que o pagamento da dívida decorrente da falência do Icesave é necessariamente uma condição para qualquer ajuda financeira à Islândia.
Nesses 14 meses desde o colapso dos bancos, a discussão sobre essa dívida do Icesave tem dominado o cenário político islandês. na semana passada foi finalmente aprovado em parlamento um acordo de pagamento, prevendo pagamento de parcelas apenas quando o crescimento do PIB país exceder 2% em relação ao PIB de 2007, e com outras condições. O acordo foi enviado para o presidente, que precisa assinar todas as leis anel que elas tenham efeito. Vários impostos já foram aumentados e custos feitos em serviços públicos para financiar o pagamento dessa dívida.
O presidente, Ólafur Ragnar Grímsson, que ontem recebeu um abaixo assinado com 60 mil assinaturas, equivalente à 20% da população do país, pedindo que ele não aprovasse o acordo, surpreendeu o governo e a população em geral se recusando a assinar o acordo de pagamento. Com a recusa do presidente, a constituição islandesa define que a aprovação da lei irá à plebiscito.

"O dever do presidente é garantir que a vontade da nação seja respeitada." - disse o presidente islandês hoje, justificando sua decisão.
A reação da Inglaterra, Holanda e do mercado financeiro mundial foi extremamente negativa. Um ministro inglês chegou a dizer hoje que caso o plebiscito acabe em rejeição do acordo, que o resultado seria um isolamento total da Islândia do mercado financeiro global. As grandes agências de crédito internacionais reagiram à notícia rebaixando o status de crédito islandês e sua avaliação da economia do país para "junk" - o menor possível. As chances da Islândia entrar para a União Européia também parecem agora bem menores. Ainda assim, há muita gente na Islândia pensa que a nação não deve pagar pelos erros dos banqueiros.
Assim, o povo islandês deve votar logo num plebiscito onde terão que escolher entre duas opções ruins para seu país: uma enorme dívida, que significa maiores impostos e piores serviços públicos, ou isolamento do sistema financeiro mundial e bloqueio das linhas de crédito internacionais?
