Discriminação no mercado de
trabalho - parte 2
29/07/08 01:16
Estive discutindo com vários amigos, estrangeiros e
islandeses, o assunto do post anterior. Alguns deles
levantaram uma hipótese que é pelo menos interessante
para explicar a desvantagem dos estrangeiros no mercado
de trabalho islandês. Essa hipótese seria de que o
problema não é exatamente discriminação em específico,
em racismo, ou xenofobismo, mas ao invés disso o fato
de que tudo na Islândia funciona na base de quem você
conhece. Assim, segindo esse raciocínio, os estrangeros
estariam em desantagem por não ter os contato que os
islandeses tem, ou mesmo os laços familiares, já que
todos s islandeses são aparentados em algum nível. É
verdade que eu posso em imaginar que uma entrevista de
trabalho aqui na Islândia, com um candidato islandês,
comece com o ntrevistador e entrevistado definindo seu
grau de parentesco e o parentesco com outras pessoas da
empresa, e também definindo os conhecidos em comum, e
imagino que isso deve mesmo fazer uma grande diferença
na hora de escolher o candidato para uma determinada
vaga.
Não sei se estou completamente convencido por essa
hipótese. Acho mais provavel que a coisa seja uma
mistura de ambos os fatores de discriminação e tabém
essa atitude de preferir candidatos com ligações
pessoais ao pessoal da empresa. De uma maneira ou de
outra, qualquer que seja a razão, o fato permanece de
que estrangeiros na Islândia tem estão em desvantagem e
tem dificuldade em conseguir bons empregos.
Discriminação no mercado de
trabalho
18/07/08 13:48
Existem várias coisas positivas sobre morar na
Islândia, disso não há dúvida. Mas nem tudo aqui nesse
rochedo perdido no Atlântico Norte é um paraíso. Uma
das coisas que mais me incomodam por aqui é
discriminação contra estrangeiros no mercado de
trabalho. Vou ser direto no assunto: salvo raras
exceções, empresas islandesas vão sempre contratar um
islandês ao invés de um estrangeiro mesmo que o
estrangeiro seja melhor qualificado.
Ontem me encontrei com um amigo que eu já não via há
alguns meses e discutimos esse assunto em vista das
dificuldades que ele está passando no país. Esse amigo
é espanhol, mora aqui na Islândia há quatro anos e fala
islandês fluente. Ele é advogado formado em Barcelona e
com um mestrado em Direito Ambiental pela Universidade
da Islândia. Desde que ele concluiu o mestrado, há mais
de um ano, ele só conseguiu emprego como pintor de
paredes, entregador, e preparando comida em
lanchonetes.
Ainda falando sobre esse amigo advogado espanhol, ele
me contou a experiência mais recente dele com essa
discriminação no mercado de trabalho, que realmente
beira o absurdo. Há algumas semanas atrás, tendo visto
nos jornais que o Ministério do Meio-Ambiente estava
com uma vaga para um advogado especializado na área,
ele mandou seu currículo e fez uma entrevista. Na
semana seguinte ele recebeu uma carta dizendo que
haviam decidido dar o emprego para outra pessoa, um
islandês, que ainda está fazendo o seu bacharelado em
direito e só vai formar no final do ano. Ou seja,
podendo escolher entre alguém com um mestrado
específico na área, eles ainda preferiram dar o emprego
para alguém que nem se formou em direito ainda.
Absurdo. Agora ele está pensando em mudar de volta para
a Espanha com a namorada, islandesa, e filho nascido
aqui.
Eu também já senti essa discriminação na pele, quando
recentemente fui há duas entrevistas para empresas de
informática em Reykjavík. Nas duas ocasiões, o
entrevistador me disse que eu era o melhor qualificado
de todos os candidatos. Ainda assim, não tive nenhuma
oferta de emprego. Até mesmo em uma empresa que já
tinha oferecido um emprego para um amigo meu islandês
que desistiu de entrar para a empresa na última hora,
eu não consegui uma oferta, mesmo sendo eu melhor
qualificado que esse amigo na mesma área.
Esse tipo de discriminação é algo com que eu não estou
acostumado. Morei sete anos no Reino Unido antes de
mudar para a Islândia, e lá esse tipo de coisa não
acontece. Na última empresa para qual eu trabalhei na
Inglaterra antes de mudar pra cá, haviam 130 pessoas no
total e dentre estas estrangeiros de 25 países
diferentes. Deve ser, eu imagino, porque por lá já
estão acostumados com estrangeiros, que ainda são um
fenômeno recente aqui na Islândia.
Outra coisa que eu acredito evidencia essa
discriminação contra estrangeiros no mercado de
trabalho na Islândia é o fato de que mesmo o número de
estrangeiros por aqui sendo alto e comparável ao resto
da Europa, atualmente representando 9% da população,
ver estrangeiros em cargos bem pagos em empresas é
super raro. Eu trabalho atualmente numa grande empresa,
a maior empresa de informática na Islândia, com mais de
400 empregados no país, e eu sou o único estrangeiro
não-escandinavo na empresa. Onde estão então os mais de
25 mil estrageiros? A conclusão é que a grande maioria
dos estrangeiros estão desempenhando as funções que os
próprios islandeses não querem fazer, nos subempregos.
Eu espero que essa atitude mude com o tempo, conforme
os islandeses se acostumem com o nível atual de
imigração. Mas, mesmo que mude, infelizmente eu acho
que ainda vai levar pelo menos uma ou duas décadas, ou
talvez mais.
Outra paixão islandesa:
acampar
13/08/07 01:51
Eu já falei aqui de algumas paixões dos islandeses,
como sorvete, churraco e carrinhos de supermercado.
Agora no final do verão, com todo mundo voltando de
férias, todos tem a mesma história pra contar, dos dias
que passaram em uma barraca em algum lugar da ilha.
O último país que eu imaginaria o povo ser louco com
acampamento seria aqui na Islândia, por óbvios motivos
meteorológicos. Mas parece que o pessoal por aqui anima
mesmo. Todos os meus colegas de trabalho, sem exceção,
acamparam nesse verão com a família ou amigos, e todos
tem a mesma história pra contar de como estava gelado e
como o vento sacudia a barraca incessantemente. Uma das
histórias que ouvi mencionava o fato de que o vento
estava tão forte numa das noites que os pinos de ferro
que seguravam a barraca no chão se quebraram e a
barraca inteira foi levada pelo vento sem nunca mais
ser encontrada, enquanto o pessoal que estava dentro,
berrando para serem escutados na ventania, teve que
correr para dentro dos carros para se protegerem da
súbita nevasca de verão.
À princípio eu até achei a idéia interessante, de se
acampar em um campo de lava remoto, algum lugar bem
bonito e isolado. Mas, não é bem assim. Pra começar, é
proibido na Islândia dirigir fora das estradas, já que
levar o carro off-road pode destruir vegetação rasteira
que nesse clima levaria décadas para se recuperar.
Parece que os islandeses na grande maioria das vezes
acampam em áreas designadas para acampamento, onde
dezenas de barracas se aglomeram em torno de um prédio
onde ficam banheiros e algumas vezes geradores de
eletricidade também, o que eu não chamaria exatamente
de isolamento ou de contato íntimo com a natureza.
Eu sempre quis fazer uma viagem de carro em volta da
Islândia, pela Estrada Número Um que contorna a ilha.
Talvez no ano que vem eu faça tal viagem e anime de
acampar no caminho, já que em algumas partes mais
remotas do país é difícil arranjar acomodação. Vou
tentar já ir me acostumando com a idéia de noites
gélidas e uma barraca balançando com o vento extremo
que sopra incessantemente nessas latitudes glaciais.
De volta da Bulgária,
reflexões sobre a islândia
01/08/07 14:34
Depois de cinco dias trabalhando na Bulgária, estou de
volta na Islândia. Eu fui à serviço para uma empresa
farmacêutica islandesa que emprega mais de três mil
pessoas na Bulgária, fui instalar um novo sistema de
Telefonia por IP para o novo escritório deles na
capital Sofia. Acabou que não vi muito de Sofia, já que
quase não tive tempo fora do trabalho. Só deu mesmo pra
passear um pouco na área em volta do hotel durante à
noite quando eu voltava do trabalho e saía à procura de
algo pra comer pro jantar. A cidade me pareceu bonita,
muito arborizada, cheia de grandes e imponentes prédios
do período comunista que devem ser interessantes de se
visitar.
É impressionante o tamanho da economia islandesa quando
você pensa que o país só tem 300 mil habitantes. Essa
empresa mesmo para qual eu fui trabalhar nesses dias na
Bulgária, tem treze mil empregados no total em mais de
30 países. No Reino Unido, empresas islandesas
praticamente controlam o mercado de comida no país e
compraram também várias das maiores lojas de roupas
britânicas, e a maior loja de brinquedos. Na Dinamarca
e Noruega, vários bancos locais foram recentemente
comprados por bancos islandeses, assim como algumas
companhias aéreas e pelo menos um jornal de grande
circulação. Isso um país que tem uma população igual à
cidade brasileira de Blumenau (SC) ou ainda de Uberaba
(MG).
Nesse fim de semana eu também fui forçado à refletir
sobre o isolamento geográfico aqui da Gelolândia. A
viagem para Sofia foi uma das mais indiretas que eu já
fiz. Eu viajei de Reykjavik para Gothenburg na Suécia,
depois para Copenhagem na Dinamarca, daí para Munich na
Alemanha e de lá finalmente para Sofia. Os motivos
desse número de conexões foram o pequeno número de vôos
que saem da Islândia pela manhã e o fato de que a
companhia aérea islandesa Icelandair só faz conexão com
vôos operados pela companhia escandinava SAS e suas
parceiras. Depois de morar em Londres por muitos anos,
eu estava acostumado a ter pegar vôos diretos pra
qualquer lugar do mundo à qualquer hora do dia, e essa
maratona de quatro conexões e 14 horas de viagem dentro
da Europa realmente me fez refletir sobre o isolamento
geográfico desse rochedo perdido no mar Atlântico
Norte.
Talarðu íslensku? - Questões
linguísticas
05/07/07 21:33
Na semana passada eu terminei o nível 3 do curso de
islandês. Aprender a língua aqui da Gelolândia não é,
como diz o provérbio inglês, um passeio no parque, mas
taria mais para um engatinhamento num campo minado e
encoberto por nevoeiro pesado. A dificuldade de
aprendizado do idioma islandês e lendária. As palavras
se juntam para montar verdadeiras aberrações que
desafiam a capacidade dos músculos da língua de se
contrcerem, e o pior, regularidade é algo praticamente
inexistente, o que força o estudante a olhar no
dicionário para saber com certeza como cada nome é
declinado ou cada verbo é conjugado. Quando você acha
que entendeu como funcioa uma parte qualquer da
gramática, por exemplo como construir os plurais de
substantivos (sim, isso é complicado), logo vem a
desanimadora compreensão de que agora você tem que
aprender como essas regras mudam com cada caso de
decinação, cada gênero e grau em suas múltiplas
combinações.
Eu estudei um ano de islandês no University College
London, quando morava na Inglaterra, antes de mudar pra
cá. Mesmo com esses dois semestres em Londres de aulas
duas vezes por semana, e agora morando na Islândia por
quatro meses também com aulas duas vezes por semana, o
meu islandês é suficiente apenas para entender
vagamente o assunto de uma conversa. Eu imagino que eu
ainda vá levar pelo menos mais um ano de aulas, morando
aqui, para poder falar a língua com o mínimo de
fluência. Na minha turma de islandês tinha gente que já
mora por aqui há mais de dois anos, e não fala
praticamente nada.
Não ajuda também que existe muito pouco material de
qualidade para o estudante da língua e poucos
professores treinados para ensinar islandês à
estrangeiros. Ainda, as aulas são caras e acho que o
governo deveria patrocinar pelo menos uma parte dos
custos para ajudar os estrangeiros, que agora são 9% da
população do país, a aprenderam a língua e assim se
integrarem melhor na sociedade islandesa.
boiando...
É uma sensação estranha à qual eu não estava
acostumado, quando todos à sua volta estão conversando
numa língua que você não entende, e você só boiando. O
que faz a coisa ficar ainda mais desconfortável é que
todos aqui falam inglês fluente, e eu então não posso
deixar de me perguntar por que então não falam falar
inglês naquele momento para incluir o(s) estrangeiro(s)
na conversa também.
Eu compreendo o conceito de que quanto mais islandês eu
for forçado a tentar entender melhor é pro aprendizado
da língua, mas a coisa na prática não é bem assim. Para
começar a aprender só de se ouvir a língua é necessário
um nível de entendimento o qual eu ainda não alcancei.
Ainda, os islandeses muitas vezes parecem pensar que o
islandês é uma língua fácil de aprender e que um
estrangeiro que está por aqui à poucos meses já deveria
estar não só falando quanto recitando as sagas no
original nórdico antigo. Um exemplo que beira o
cômico-trágico é que a carta que recebi do Departamento
de Imigração avisando que meu Cartão de Residente já
estava pronto veio toda em islandês! Esse documento tem
que ser providenciado nos primeiros meses de moradia na
Islândia, então como é que esperam que o estrangeiro
tenha aprendido a língua naquele tempo para ler a
carta. Eu não resisti, mesmo ja tendo alguem traduzido
a carta pra mim e me avisado do que ela se tratava, fui
ao guichê de atendimento e disse em inglês "Recebi essa
carta aqui, não tenho a menor idéia do que se trata
porque obviamente não tie tempo de aprender a língua
ainda, como vocês devem saber!"... a moça sem graça não
soube bem o que dizer e correu para pegar meu cartão no
fichario no fundo do escritório.
No trabalho até que é tranquilo, os colegas sempre
falam inglês comigo e até mesmo os clientes todos
parecem não se importar de falar inglês também. Acho
que na minha área de trabalho, em informática, todos ja
estão acostumados de lidar com estrangeiros falando
inglês já há muitos estrageiros nessa área rabalhando
na Islânda. Só às vezes é que recebo emails em islandês
dos colegas, e fico com vontade de responder em
português pra ver se quem mandou se lembra de que eu
ainda não compreendo esse código secreto que é o
islandês! hehehe
A situação onde eu "boio" mais é nas reuniões sociais.
Agora no verão é época de churrasco e festas, o pessoal
se reúne para jogar conversa fora, tomar cerveja e
comer petiscos e churrascos. Nessas situações, fico
dependendo de alguém parar a conversa de vez em quando
e me explicar qual foi o assunto falado nos últimos
dez, quinze ou vinte minutos. De novo, não consig
evitar de pensar, será que não dava pra falar inglês
todo mundo então, sendo grupos de poucas pessoas onde
todos são perfeitamente capazes de falar inglês
fluente? Well, it is the way it is.
Talvez no verão do ano que vem eu já não tenha que
boiar mais. Tomara!
Morar na Islândia melhora as
suas viagens
14/06/07 18:23
Nessa semana eu estou em outra ilha do Atlântico Norte,
na Inglaterra. Eu e mais dois colegas de trabalho da
Islândia estamos em uma cidade perto de Londres fazendo
um curso pro trabalho.
Todo dia depois do curso, tem sempre uma rodada de
cerveja com os colegas. Entre uma cerveja e outra, um
dos meus colegas de trabalho, um islandês, disse algo
que eu achei interessante. Ele disse:
"Morar na Islândia faz com que suas viagens sejam muito
melhores. Isso porque pra quem mora na Islândia,
qualquer outro lugar pra onde você viaje, tudo é barato
e o tempo é sempre bom, em comparação com o que temos
em casa."
Eu ainda não tinha pensado nisso, mas ele tem razão.
Pra quem mora, vamos dizer, na Flórida, Califórnia, ou
mesmo no Brasil, quando viajando para o exterior, tudo
parece caro e o tempo é sempre pior do que em casa. Já
na Islândia, que é provavelmente o país com o custo de
vida mais alto do mundo e muito provavelmente com o
pior clima do mundo, é exatamente o contrário.
Esse mesmo colega então contou que há algumas semanas
atrás tinha ido acampar no norte da Islândia, mas o
vento estava tão forte que quebrou os pinos de ferro
que fixavam a barraca no chão, e a barraca que custou
uma verdadeira fortuna acabou sendo perdida no vento.
Ele e os amigos tiveram que então encontrar abrigo no
meio da nevasca, sem visibilidade nenhuma e tendo que
berrar para serem escutados na ventania, isso no verão.
Essa estória pareceu ilustrar o ponto que ele tinha
feito sobre viagens para os habitantes da Gelolândia.
A Inglaterra, para os europeus é um país caro e
chuvoso. Para os islandeses, é uma ilha tropical onde
tudo é baratíssimo!
Diferenças de design nos
imóveis
15/04/07 15:30
Uma coisa tem me chamado a atenção nas visitas que
tenho feito à procura de um apartamento pra morar aqui
em Reykjavík é que o design dos imóveis por aqui é
diferente do que estou acostumado no Brasil.
No Brasil sempre se entra numa casa pela sala de estar.
Aqui na Islândia nunca é assim, mas sempre se entra por
um pequeno hall de entrada que dá acesso aos quartos,
cozinha e sala em separado, sem nunca ter que passar
por ambiente para chegar ao outro.
Transporte Público em
Reykjavík
28/03/07 20:32
As capitais européias são famosas pelos seus sistemas
de transporte público, desde os famosos sistemas de
metrô de Londres, Moscou, Paris e Estocolmo até os
eficientes sistemas de ônibus de Copanhagem e
Edimburgo. Aqui na Islândia, no entanto, a realidade é
bem diferente.
Não existe sistema ferroviário na Islândia e não há
sistema de metrô em nenhuma cidade islandesa, o que nos
deixa com o sistema de ônibus. Eu já ouvi de vários
islandeses o seguinte comentário sobre o sistema de
transporte público islandês: "ônibus aqui é só para
crianças e velhos". E é verdade. O que me lembra de um
outro fato curioso que eu reparei há alguns dias atrás.
A janela da cantina do meu trabalho dá de frente para a
garagem dos ônibus da prefeitura de Reykjavík, e eu
estava reparando que o estacionamento da garagens
estava cheio de carros e jipes. Nem mesmo os motoristas
de ônibus usam os ônibus para ir pro trabalho.
A Islândia é o país do carro, com a maior proporção
per-capita de uso de automóveis da Europa e
provavelmente do mundo. Todo mundo dirige para o
trabalho e para todo lado. Ninguém caminha na rua nem
que seja para comprar pão na padaria do quarteirão
vizinho. Ao ponto de que, sempre quando estou no carro
com um colega de trabalho ou conhecido, toda vez que há
um pedestre atravessando a rua, inevitavelmente se ouve
um comentário de que ele é certamente um estrangeiro.
Por aqui pedestre e estrangeiro são sinônimos.
Ciclistas no trânsito então são certamente estrangeiros
loucos. Eu imagino que essa aversão ao transporte
público e à caminhadas por parte dos islandeses seja em
grande parte por causa do clima. É inegável que nas
frequentes nevascas e tempestades é bem melhor estar no
quentinho do carro do que na rua. Também não ajuda que
os ônibus são poucos e com poucas rotas pela cidade.
E quanto maior o carro melhor, alguns jipes até me
deixam intrigado de como é que o motorista sobe nele
sem uma escada, vou tentar tirar umas fotos e comentar
especificamente sobre essas monstruosidades tão comuns
no trânsito islandês.
O Livro dos Islandeses
17/03/07 20:04
Os islandeses são muito interessados em genealogia. Até
mesmo na literatura clássica islandesa, nas famosas
Sagas medievais, boa parte dos livros era dedicada a
estabelecer a árvore genealógica de cada um dos
personagens. Essa mania continua nos dias de hoje.
Minha noiva, por exemplo, sabe sobre a árvore
genealógica da família dela através de mais de mil anos
até o século VIII. Um dos antepassados dela era um rei
da Noruega na idade média chamado Haraldur Hárfagri
("Harald do Cabelo Bonito"), o que eu acho um nome
engraçado para um viking. Não "o valente" ou "o forte",
mas "o do cabelo bonito", fica parecendo que isso era o
melhor que se podia falar à respeito dele! Bom, parece
que o cabelo deve ter sido bonito mesmo, porque esse
rei é famoso por ter tido filhos um grande número de
mulheres. Um dos filhos dele era Eirikur Blóðexi
("Eirik do Machado Sangrento"), esse sim parece ter
sido um viking destemido, mesmo que talvez não tivesse
o cabelo bonito do pai.
Os islandeses sempre acharam muito importante manter um
registro de todos os habitantes do país. Desde quando
os primeiros colonizadores chegaram à Islândia por
volta do ano 874, ele mantiveram um livro chamado
Íslendingabók ("O Livro dos Islandeses"), que era
sempre atualizado com os novos nascimentos por mais de
um século e depois a igreja tomou conta dos registros.
Esse primeiro livro de registros e os registros da
igreja sobreviveram até hoje.
Agora no século XXI, o Livro dos Islandeses foi
transferido para um banco de dados computadorizado e
está disponível na internet para consultas. Nesse banco
de dados estão os registros de mais de 730 mil pessoas
que viveram na islândia desda a colonização desde o ano
de 874. É possível inclusive entrar com os nomes de
duas pessoas nesse banco de dados para ver qual é a
conexão entre as famílias dessas duas pessoas. Na
Islândia todos são parentes uns dos outros em algum
ponto no passado.
Nem sempre a consulta à esse banco de dados revela uma
linha de antepassados nobres ou cheia de guerreiros
vikings conhecidos pela sua bravura. Uma conhecida por
exemplo me contou que o banco de dados revelou que um
dos antepassados dela era chamado Bjálfi. Esse nome
quer dizer "idiota" em islandês. Um outro antepassado
dele era Egill Skallagrímsson, esse sim um guerreiro
viking famoso, que teve suas aventuras preservadas para
a posteridade nos textos medievais das sagas
islandesas. No entanto, Egill não é descrito esses
textos antigos como o viking típico, que seria belo,
honrado, generoso e forte. No caso de Egill ele é
descrito como um violento alcóolatra (ironicamente a
maior cervejaria islandesa tem o nome dele, Egill) e
como sendo tão feio que nunca conseguiu se casar. Um
idiota e um alcóolatra feioso não era o que ela
esperava encontrar!
Clima de inverno
25/02/07 22:11
Eu já estive em Reykjavík quando o clima estava
horrível, quando mal se podia caminha pela rua por
causa do vento. Esses últimos dias, no entanto, tem
sido ótimos. Desde que cheguei o sol tem brilhado no
céu e o vento resolveu soprar em outras bandas longe da
capital. Mesmo com o frio de -6 graus, os dias tem sido
lindos. Obrigado pela boa recepção, Islândia.
O grande canteiro de obras
de Reykjavík
24/02/07 22:25
É impressionante quantos guindastes se vê em Reykjavík
hoje em dia, erguendo prédios e mais prédios. É o
progresso, alguns diriam. Reykjavík é mesmo uma cidade
que muda muito rapidamente. Qualquer islandês pode te
contar que a capital era completamente diferente
durante a sua infância, e não são só os velhos que
dizem isso, os jovens de mais de 20 anos de idade
também compartilham dessa nostalgia. Acho que uma coisa
que facilita essa mudança acelerada na cidade é que a
ausência de prédio verdadeiramente antigos como outras
capitais européias tem. Tudo em Reykjavík é novo e
recente, e poucos dos prédios são protegidos como
patrimônios históricos. Nesse sentido, Reykjavík se
assemelha mais à uma pequena cidade americana do que à
uma capital européia. Esse é o charme da Islândia
também ideologicamente falando, esse é o lugar onde o
espírito capitalista e criativo dos americanos se
encontra com a preocupação européia com o lado social,
fazendo uma mistura única.
Ainda falando sobre a velocidade de desenvolvimento e
crescimento da capital islandesa, o que é mesmo
impressionante é pensar que Reykjavík era nada mais que
um grupo de fazendas há apenas 100 anos atrás. Eu estou
curioso para ver com os meus próprios olhos as mudanças
pelas quais Reykjavík vai passar no futuro.