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"Poderia ser pior, você poderia estar na Islândia"

Esse foi o título do artigo publicado hoje no jornal britânico Guardian, e dá uma boa idéia da gravidade da situação da economia da Islândia no momento. A situação econômica na Inglaterra e na Europa em geral vai mal, mas aqui na Islândia está muito pior.

Nas últimas duas semanas, dois dos três maiores bancos islandeses foram nacionalizados para evitar a total falência, e seus acionistas perderam todo o dinheiro que tinham investido em ações dos bancos. O único banco islandês que sobrou de pé, o Kaupthing, recebeu um grande empréstimo do governo, mas mesmo assim a situação do banco é incerta.


Plano de resgate

Na última segunda-feira o governo islandês, em sua imensa sabedoria, anunciou que não era necessário nenhum pacote de resgate da economia, que tudo estava bem. Poucas horas depois, a moeda islandesa caiu mais 14% e mais um banco faliu. Na terça-feira, tendo então acordado para a gravidade da situação o governo anunciou um pacote de medidas para tentar estabilizar a economia.

O ponto central do pacote de resgate se concentra em dar poder ao governo de tomar controle de qualquer instituição financeira à qualquer momento. Outro ponto importante é que o patrimônio dos bancos e instituições financeiras, que se encontra 90% no exterior deve ser repatriado, assim como os gordos fundos de aposentadoria controlados pelos sindicatos, numa tentativa de se fortalecer a moeda islandesa.


A krona que ninguém quer

O dólar chegou a subir 110% nos últimos meses e a situações ficou tão feia que várias empresas estão tendo dificuldade em fazer remessas de dinheiro ao exterior porque ninguém quer comprar krona, e as reservar de moeda estrangeira no país secaram.


Primeiro Ministro precisando de guarda-costas

Saiu a notícia hoje de que o primeiro ministro islandês agora está andando com guarda-costas, depois de ter sido agredido numa academia de ginástica. Essa é a primeira vez na historia da Islândia em que um político anda com guarda-costas. Não me surpreende que alguém tenha agredido o primeiro ministro, afinal muita gente perdeu dinheiro nessa crise e há muita raiva no momento contra o governo.

Nessa semana vi várias vezes uma cena que me lembrou da minha infância. Toda vez que o primeiro ministro faz um pronunciamento na televisão, e foram vários nos últimos dias, todo mundo se reúne em volta de televisão, como costumávamos a fazer no Brasil.


Calote nos britânicos

O segundo maior banco da Islândia, que foi nacionalizado no início da semana, tem um banco na Inglaterra que foi fechado nessa semana. O banco tinha mais de 5 bilhões de dólares em depósitos de clientes ingleses. A mensagem do governo islandês, que tomou o banco é: não temos dinheiro para restituir os depósitos, o banco simplesmente faliu e o dinheiro foi perdido. O governo britânico parece que vai garantir esses depósitos, e disse hoje em tom nada amigável que vai "entrar na justiça" contra o governo islandês.


Bom, a situação por enquanto é caótica e incerta no país, que enfrenta agora um total colapso da economia. Espero que quando a tempestade passar, que o nível de vida aqui na Gelolândia no final das contas não tenha sido afetado demais pela crise.

Em resposta ao leitores que perguntaram sobre a minha situação pessoal frente à essa crise, primeiro obrigado pela preocupação. A empresa onde eu trabalho não tinha investimentos nos bancos e por isso não foi tão afetada pela crise, apesar de que vários dos clientes faliram e isso tem um impacto negativo. O meu emprego, e da minha noiva que trabalha num banco, por enquanto estão seguros; mas como para os islandeses também, à cada dia não se sabe se no final do dia ainda teremos um emprego. Temos que viver um dia de cada vez e torcer para que essa crise passe logo.
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